Medicamento lorlatinibe mantém 55% dos pacientes com câncer de pulmão avançado sem progressão por sete anos
O medicamento lorlatinibe manteve 55% dos pacientes com câncer de pulmão avançado e rearranjo de ALK vivos e sem progressão da doença após sete anos. A terapia-alvo atua em mutações genéticas específicas, mas causou efeitos colaterais graves em 77% dos usuários. No Brasil, o fármaco custa cerca de R$ 37 mil mensais e não foi aprovado para o SUS
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/B/b/BwemDcTLqhXTNMGGwrVg/design-sem-nome-4-.png)
Um estudo recente revelou que o uso do medicamento lorlatinibe permitiu que 55% dos pacientes com câncer de pulmão avançado permanecessem vivos e sem a progressão da doença após sete anos de acompanhamento. O resultado é considerado inédito para casos em estágio avançado, alterando a perspectiva clínica sobre a sobrevida de pacientes com esse diagnóstico.
O fármaco, administrado via oral em um comprimido diário, faz parte da chamada terapia-alvo. Diferente dos protocolos tradicionais, que eram definidos pelo órgão afetado, essa abordagem utiliza exames genéticos para atacar mutações específicas que impulsionam o crescimento do tumor.
Indicação e funcionamento molecular
O lorlatinibe não é indicado para todos os casos de câncer de pulmão. Sua eficácia é restrita a pacientes que apresentam o rearranjo de ALK, uma alteração genética presente em 3% a 7% dos casos do tipo mais comum da doença (não pequenas células).
Nessa mutação, a célula produz uma proteína defeituosa que atua como um interruptor ligado permanentemente, enviando sinais constantes de multiplicação. O medicamento bloqueia essa proteína, interrompendo a proliferação tumoral.
O desenvolvimento do fármaco focou em superar duas barreiras principais:
- Resistência tumoral: Evitar que a doença se adapte ao tratamento ao longo do tempo.
- Barreira hematoencefálica: O medicamento consegue atravessar a proteção natural do cérebro, combatendo metástases cerebrais, que afetam entre 25% e 40% dos pacientes dois anos após o diagnóstico.
Impacto clínico e limitações
A evolução das terapias inibidoras representa um salto histórico. Anteriormente, quando a quimioterapia era a única opção, nenhum paciente com esse quadro atingia cinco anos sem progressão da doença.
Apesar do avanço, a terapia não é universalmente eficaz; 45% dos pacientes do estudo não obtiveram sucesso com o tratamento. Além disso, foram registrados efeitos colaterais significativos:
- Sistema nervoso central: 52% dos pacientes apresentaram alterações cognitivas, mudanças de humor ou impactos psiquiátricos.
- Eventos adversos graves: 77% dos pacientes relataram efeitos de grau 3 ou 4, que impactam a rotina diária.
Barreiras de acesso e custo no Brasil
O câncer de pulmão é a neoplasia que mais causa mortes no Brasil, com 31.237 óbitos anuais, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). No entanto, o acesso ao tratamento moderno enfrenta obstáculos financeiros e diagnósticos.
A identificação da mutação ALK exige testes genéticos que, frequentemente, não são disponibilizados nem por planos de saúde. Quando o diagnóstico é confirmado, o custo do lorlatinibe é de aproximadamente R$ 37 mil por mês.
Atualmente, o acesso ao medicamento ocorre por três vias:
- Planos de Saúde: O fármaco consta na lista da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), tornando a cobertura obrigatória.
- Judicialização: Pacientes que conseguem a medicação via Justiça para uso no SUS.
- Pagamento Particular.
O medicamento foi analisado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), mas não foi aprovado para a rede pública. O relatório da comissão indicou que, apesar dos benefícios clínicos, a relação de custo-efetividade não foi considerada eficiente para o orçamento do SUS.