Saúde

Medicamentos da classe GLP-1 reduzem hospitalizações e amputações em pacientes com doença arterial periférica

02 de Julho de 2026 às 12:07

Estudo publicado no Journal of the American Heart Association indica que agonistas do receptor de GLP-1 reduzem óbitos, hospitalizações, amputações e revascularizações em pacientes com doença arterial periférica. A pesquisa comparou 2.133 usuários do medicamento com 2.133 tratados com metformina entre 2010 e 2025. Os resultados apontam menor mortalidade geral no grupo GLP-1, com 10,31% contra 14,49%

Medicamentos da classe GLP-1 reduzem hospitalizações e amputações em pacientes com doença arterial periférica
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O uso de medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, comumente aplicados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, está associado a a redução de óbitos, hospitalizações, amputações e revascularizações em pacientes que também possuem doença arterial periférica (DAP). A conclusão é de um estudo publicado no Journal of the American Heart Association, que acompanhou pacientes por cinco anos e comparou os resultados com aqueles tratados com metformina.

A pesquisa analisou prontuários eletrônicos da plataforma TriNetX entre 2010 e 2025, selecionando grupos iguais de 2.133 pacientes para cada tratamento. Na população geral com diabetes tipo 2 e DAP, a mortalidade por qualquer causa foi de 10,31% entre os usuários de GLP-1, contra 14,49% no grupo da metformina. As taxas de hospitalização foram de 69,3% versus 74,7%, enquanto as revascularizações ocorreram em 4,69% dos casos no primeiro grupo e 7,27% no segundo. Quanto às amputações, o grupo GLP-1 registrou 2,30% de procedimentos maiores e 4,03% de menores, comparado a 4,36% e 6,42%, respectivamente, nos pacientes que usaram metformina.

A autora do estudo, Akiva Rosenzveig, explica que pacientes com obesidade e isquemia crônica enfrentam maior carga inflamatória, doença metabólica e disfunção endotelial. O tratamento atuaria na melhora desses processos por meio de efeitos anti-inflamatórios, melhor controle da glicemia, função endotelial aprimorada e perda de peso, beneficiando especialmente quem possui maior risco basal.

A análise detalhou subgrupos específicos. Em pacientes com isquemia crônica ameaçadora do membro (CLTI), a forma mais grave da DAP, houve redução na mortalidade (8,24% contra 11,63%), hospitalizações (65,82% contra 69,83%), revascularizações (2,93% contra 4,18%), amputações maiores (3,14% contra 4,81%) e menores (6,44% contra 8,49%). Contudo, esse grupo apresentou uma frequência discretamente superior de eventos renais adversos maiores em comparação aos usuários de metformina.

Já entre pacientes com claudicação, a manifestação mais comum da DAP, o uso de GLP-1 reduziu a mortalidade, as hospitalizações e o risco de amputações maiores. Quando a análise foi dividida pelo Índice de Massa Corporal (IMC), pacientes com obesidade (IMC igual ou superior a 30 kg/m²) apresentaram menor taxa de hospitalização e menor risco de amputações menores. Para aqueles sem obesidade, houve apenas uma tendência de redução nas hospitalizações, sem diferença estatística nos demais indicadores.

Apesar dos ganhos vasculares e de membros, o estudo não encontrou diferenças significativas entre os grupos em relação a acidentes vasculares cerebrais (AVC), infartos do miocárdio, eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE) ou eventos renais adversos maiores (MAKE) na população geral. Rosenzveig pontua que a sobrevida melhorada pode ser resultado do conjunto de reduções em amputações, revascularizações e internações, mesmo sem alteração nas taxas de AVC e infarto.

Os mecanismos que explicam esses resultados vão além do peso e da glicemia, incluindo a redução do estresse oxidativo e de citocinas pró-inflamatórias, o aumento da disponibilidade de óxido nítrico, a melhora da perfusão tecidual, a vasodilatação, a melhora da função do endotélio, a redução da inflamação vascular e o retardamento da aterosclerose.

Os dados complementam o estudo STRIDE, primeiro ensaio clínico randomizado sobre semaglutida em pacientes que já havia indicado melhoras na função física, qualidade de vida e capacidade de caminhada, mas não tinha escala para medir mortalidade e amputações. Embora a semaglutida possua as evidências mais robustas para a DAP, a análise atual avaliou a classe de GLP-1 como um todo, não sendo possível determinar a superioridade de um fármaco específico.

Por se tratar de um estudo retrospectivo baseado em registros eletrônicos, a pesquisa possui limitações, como a impossibilidade de estabelecer relação direta de causa e efeito, a dependência da qualidade dos prontuários e a ausência de dados sobre doses ou a confirmação do uso efetivo dos medicamentos. Os autores ressaltam que a análise de diferentes fármacos em conjunto e o número reduzido de eventos em alguns subgrupos reforçam a necessidade de ensaios clínicos prospectivos e randomizados para confirmar a prática clínica.

Com informações de G1

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