Mercado de exames preventivos de corpo inteiro cresce com uso de inteligência artificial
Empresas como Prenuvo, Ezra e Neko Health expandem o mercado de exames preventivos de corpo inteiro para detectar doenças precocemente. O serviço da Neko Health custa 299 libras e utiliza scanners com IA para rastrear condições como câncer de pele, diabetes e doenças cardiovasculares. O modelo gera debates entre a defesa da prevenção e alertas do NHS sobre diagnósticos excessivos
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/c/B/Ett3x3SJqFjVe3UxZiCg/mais-de-2-mil-fotos-da-pele-de-ruth-foram-tiradas.jpeg)
O mercado de exames preventivos de corpo inteiro, conhecidos na Inglaterra como MOTs, apresenta um crescimento acelerado, impulsionado por empresas como Prenuvo, Ezra e Neko Health. Essas companhias têm atraído milhões em investimentos de capital de risco para oferecer tecnologias que buscam identificar doenças antes da manifestação de sintomas, posicionando-se como uma nova fronteira na saúde.
Tecnologia de escaneamento e diagnóstico
Uma das abordagens utilizadas, como a da Neko Health, envolve o uso de scanners curvos equipados com cerca de 70 câmeras. O processo captura aproximadamente 2 mil fotografias do corpo do paciente, que são processadas por inteligência artificial para criar um avatar 3D. Esse sistema visa analisar marcas, sardas e pintas para a detecção de câncer de pele.
Além do rastreio dermatológico, esses check-ups abrangem a investigação de diversas condições, incluindo:
- Doenças cardiovasculares (via eletrocardiograma);
- Diabetes tipo 2 e outras alterações sanguíneas;
- Distúrbios renais;
- Problemas oculares, como o glaucoma.
No caso da Neko Health, o serviço possui um custo de 299 libras (aproximadamente R$ 2 mil), apresentando atualmente uma lista de espera de 100 mil pessoas.
Eficácia e controvérsias clínicas
A aplicação desses exames gera debates entre defensores da medicina preventiva e profissionais de saúde pública. Hjalmar Nilsonne, cofundador da Neko Health, argumenta que a atenção primária atual é básica e que a prevenção é superior ao tratamento após o surgimento de sintomas. Dados da empresa indicam que, em 4.362 exames realizados em Estocolmo no último ano, 1,2% detectaram doenças potencialmente fatais, como leucemia e melanoma, enquanto 4% identificaram problemas significativos e 1,2% apontaram condições reversíveis, como níveis pré-diabéticos de açúcar no sangue.
Por outro lado, o serviço público de saúde britânico (NHS) e a Royal College of General Practitioners (RCGP) expressam ceticismo. A professora Victoria Tzortziou Brown, presidente do RCGP, afirma não haver evidências convincentes de que rastreios privados em larga escala melhorem os resultados de saúde. O NHS alerta que a prática pode levar a diagnósticos excessivos, investigações desnecessárias e ansiedade evitável, além de sobrecarregar o sistema público quando pacientes buscam tratamento para resultados clinicamente insignificantes.
Impactos reais nos pacientes
A experiência dos usuários varia entre a detecção precoce de doenças graves e a ocorrência de falsos positivos. Uma paciente de 33 anos, em Birmingham, foi diagnosticada com diabetes autoimune latente em adultos (LADA) após exames de sangue preventivos, apesar de não apresentar sintomas. A intervenção precoce permitiu o início do tratamento com insulina e dieta.
Em contrapartida, há relatos de falhas tecnológicas. Uma paciente de 50 anos relatou que o scanner de IA não detectou quatro lesões cancerígenas; o diagnóstico só ocorreu após a avaliação humana de uma marca vermelha durante a consulta médica. O caso resultou na remoção cirúrgica de dois carcinomas basocelulares e crioterapia em outros dois.
Perspectivas para o sistema de saúde
Enquanto o médico Stephen Harden, da Royal Society of Radiologists, defende que o rastreio direcionado a áreas específicas (como colo do útero, mamas ou intestino) é mais confiável que a tomografia de corpo inteiro, outras visões sugerem uma mudança de paradigma. Steve Brine, ex-ministro da Saúde britânico, defende que a identificação de problemas antes que o indivíduo se torne um paciente é uma tendência política e social, sugerindo que a atenção primária precisará se adaptar para integrar esses exames no futuro do sistema de saúde.