Metade dos diagnósticos de câncer de mama no SUS ocorreu em fase avançada em 2025
Metade dos diagnósticos de câncer de mama no SUS em 2025 ocorreu em fase avançada, com índice de 70% entre mulheres de 20 a 29 anos. A cobertura de mamografia para a faixa de 50 a 69 anos foi de 22,1%, enquanto a mortalidade atingiu 21.668 óbitos no país
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Metade dos diagnósticos de câncer de mama realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025 ocorreu em fase avançada. O dado integra o Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, relatório divulgado nesta quinta-feira (1º) pelo Observatório de Oncologia da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e Instituto Natura, que analisou indicadores do Ministério da Saúde entre 2015 e 2025.
O levantamento revela que a proporção de casos descobertos tardiamente cresceu durante a pandemia e não retornou aos níveis anteriores. A situação é mais crítica entre as mulheres mais jovens: na faixa de 20 a 29 anos, 70% das pacientes são diagnosticadas nos estágios 3 ou 4, as fases mais graves da doença.
Impacto da idade no diagnóstico
A probabilidade de detecção precoce aumenta conforme a idade da paciente avança. Enquanto as mulheres de 30 a 39 anos apresentam 62,7% de diagnósticos avançados, esse índice cai para 54,6% na faixa de 40 a 49 anos e chega a 47,9% entre aquelas de 50 a 69 anos que realizam o rastreamento de rotina.
A detecção tardia em jovens é atribuída a diversos fatores:
- Baixa suspeição: A raridade da doença em idades precoces leva pacientes e profissionais a interpretarem nódulos como benignos ou alterações mamárias como efeitos do ciclo menstrual.
- Biologia do tumor: Abaixo dos 40 anos, há maior incidência de tumores agressivos e de crescimento rápido, como os HER2 positivos e os triplo-negativos.
- Dificuldades técnicas: A maior densidade da mama em mulheres jovens reduz a eficácia da mamografia.
- Desinformação: O Índice de Conscientização sobre o Câncer de Mama aponta que 86% das mulheres desconhecem que a mamografia pode ser realizada em qualquer idade, desde que haja indicação médica.
Sinais como nódulos persistentes, retração do mamilo, secreções transparentes ou sanguinolentas, gânglios endurecidos na axila e pele com aspecto de "casca de laranja" exigem avaliação médica imediata, independentemente da idade ou do histórico familiar.
Gargalos no rastreamento e cobertura do SUS
A cobertura da mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 69 anos no SUS foi de 22,1% em 2025, valor significativamente abaixo da meta de 70% recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O índice já foi maior em 2015 (26,8%) e sofreu queda brusca em 2020 (13,6%), com um recuo adicional de 1% no último ano.
As disparidades regionais são acentuadas, com as menores coberturas no Norte (10,6%) e Centro-Oeste (13,5%), enquanto Piauí (32,4%), Bahia (28,8%) e São Paulo (28,7%) registraram os maiores índices.
Atualmente, o Brasil utiliza o modelo oportunístico, no qual o exame ocorre apenas se a paciente procurar o serviço e o médico o solicitar. Como alternativa, defende-se o rastreamento organizado, onde o sistema identifica, convoca e acompanha as mulheres aptas ao exame.
Quanto à idade de início, o Ministério da Saúde oferece a mamografia para mulheres de 40 a 49 anos sob demanda e a cada dois anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e a Febrasgo recomendam o rastreamento anual a partir dos 40 anos.
Tempo de espera e taxas de cura
Embora o intervalo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento tenha caído de 148 dias (2015) para 86 dias (2025), o prazo ainda excede os 60 dias estabelecidos pela Lei 12.732/2012. Entre 2015 e 2025, 62% das pacientes iniciaram a terapia após o limite legal.
Há uma disparidade na priorização: em 2025, pacientes no estágio 1 esperaram, em média, 101 dias para tratar a doença, enquanto aquelas no estágio 3 levaram 76 dias. Esse cenário reflete a urgência dos casos avançados em detrimento de tumores pequenos, que entram em filas de cirurgias eletivas.
O estágio da doença define a complexidade do tratamento e as chances de recuperação:
- Estágio 1: Taxa de cura de aproximadamente 90%. Tumores de até 2 cm, geralmente tratados com cirurgia conservadora, radioterapia e terapia hormonal.
- Estágios 3 e 4: Sobrevida menor e tratamentos complexos, envolvendo quimioterapia pré-cirúrgica, radioterapia e mastectomias.
O atraso cirúrgico é crítico; uma meta-análise indica que cada quatro semanas de espera elevam em 8% o risco de morte. Além disso, o diagnóstico tardio onera o sistema público com tratamentos prolongados e gera sequelas físicas e afastamentos laborais.
Mortalidade e projeções
Em 2025, o câncer de mama causou a morte de 21.668 mulheres no Brasil, o maior volume da série histórica, representando um aumento de 39% em relação a 2015. A taxa de mortalidade estabilizou-se em 19,5 óbitos por 100 mil mulheres desde 2022.
Para o período entre 2026 e 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos diagnósticos anuais. Para enfrentar esses números, especialistas sugerem a implementação de linhas de cuidado coordenadas entre estados e municípios, com a criação de "vias rápidas" para casos suspeitos e a adoção da navegação de pacientes para eliminar barreiras assistenciais.