Saúde

Ministério Público de São Paulo investiga lesão cerebral de jovem após uso de atração no Hopi Hari

21 de Setembro de 2026 às 18:00 4 min de leitura

O Ministério Público de São Paulo investiga um caso de traumatismo cranioencefálico ocorrido em abril com uma jovem na atração Montezum, do parque Hopi Hari. A vítima sofreu hemorragia intracraniana e edema cerebral, resultando em perda de movimentos e necessidade de sete cirurgias. O parque afirma seguir normas técnicas e o processo aguarda perícia policial no equipamento

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O Ministério Público de São Paulo investiga um caso de traumatismo cranioencefálico ocorrido em abril, envolvendo uma jovem que perdeu os movimentos de parte do corpo após utilizar a atração Montezum, no parque Hopi Hari, em Vinhedo (SP). A vítima, que não possuía doenças preexistentes, apresentou hemorragia intracraniana e um edema cerebral severo, mesmo sem ter sofrido impacto direto na cabeça.

O quadro clínico exigiu a realização de uma craniectomia descompressiva — remoção de parte da calota craniana para reduzir a pressão do inchaço cerebral — e resultou em 57 dias de internação. Após o episódio, a jovem passou a apresentar dificuldades na fala, lapsos de memória e a perda total dos movimentos do braço e da perna esquerdos. Cinco meses depois, a paciente segue em reabilitação com fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, tendo passado por sete cirurgias.

Mecanismos de lesão neurológica

A investigação e a literatura médica apontam que a aceleração, a desaceleração e a rotação bruscas do corpo podem provocar danos neurológicos graves. O cérebro, embora protegido por líquido e meninges dentro do crânio, pode se deslocar durante frenagens repentinas e colidir contra as paredes internas do osso. Esse processo, chamado de mecanismo de contragolpe, pode romper vasos sanguíneos e causar hemorragias.

Outro risco identificado é a lesão axonal difusa, que ocorre quando os axônios (conexões entre neurônios) são esticados ou rompidos devido ao movimento brusco. Além disso, existe o "efeito chicote", no qual a cabeça é projetada violentamente para trás e para frente. Esse movimento pode:

  • Provocar a dissecção (esgarçamento) de artérias que levam sangue ao cérebro;
  • Causar lesões na coluna cervical, comprometendo a transmissão de informações motoras e sensitivas;
  • Gerar a cervicalgia (dor cervical) por danos musculo-ligamentares.

Esses fenômenos são semelhantes aos observados em acidentes automobilísticos, explosões e esportes de contato, como o futebol americano. Em atletas dessa modalidade, a frenagem brusca por choques repetitivos contribui para que cerca de 20% dos jogadores aposentados desenvolvam a encefalopatia traumática crônica (ETC), uma doença degenerativa do cérebro.

Histórico da atração e precedentes médicos

A montanha-russa Montezum, inaugurada em 1999, possui 42 metros de altura e atinge velocidades de até 103 km/h em um percurso de 58 segundos. Além do caso atual, outros incidentes graves foram registrados na atração:

  • 2018: Uma usuária sofreu deslocamento de vértebras devido ao efeito chicote, exigindo a colocação de hastes e 12 pinos na região cervical, resultando em perda da mobilidade do pescoço.
  • 2014: Um homem tornou-se tetraplégico após o rompimento de duas vértebras, vindo a falecer em 2023 por complicações de uma infecção urinária.
  • Relatos recentes: Cerca de 40 queixas em plataformas de consumo mencionam lesões como costelas quebradas, problemas no joelho e dores cervicais nos últimos dois anos.

Estudos internacionais corroboram a possibilidade de danos vasculares em parques de diversão. Uma revisão japonesa (1994-2024) documentou casos de AVC e hematomas subdurais em crianças e adolescentes saudáveis. Outro estudo realizado nos Estados Unidos, entre 1992 e 1993, registrou 656 lesões nas costas e pescoço em quase um milhão de viagens em uma montanha-russa, com 72% dos casos graves concentrados em discos cervicais.

Riscos e contraindicações

Embora a ocorrência de AVC em pessoas saudáveis seja considerada rara, a vulnerabilidade individual — incluindo anatomia, condição física e histórico de traumas cranianos ou vasculares — influencia a gravidade das lesões. A recomendação médica é a busca imediata por diagnóstico caso persistam dores de cabeça ou no pescoço após o uso de atrações radicais.

O Hopi Hari afirma que a Montezum segue normas nacionais e possui certificação internacional do grupo TÜV Nord, com inspeções anuais. O parque destaca que existem avisos sonoros e placas contraindicando a atração para gestantes, pessoas com problemas na coluna ou condições clínicas específicas.

Sobre o caso da jovem, a empresa informou que custeou as despesas iniciais, disponibilizou seguro e seguiu os protocolos de atendimento. Quanto aos incidentes de 2014 e 2018, o parque ressaltou que ocorreram sob gestão anterior. Sobre as reclamações em sites de consumidores, a administração classificou o volume como estatisticamente irrisório frente ao fluxo de 1,2 milhão de visitantes na atração nos últimos dois anos.

O processo conduzido pelo Ministério Público de São Paulo segue em andamento, com a solicitação de perícia policial no equipamento.

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