Saúde

Mitomania é caracterizada pela criação compulsiva de histórias para busca de atenção e autovalorização

30 de Setembro de 2026 às 09:01 3 min de leitura

A mitomania, ou pseudologia fantástica, consiste na criação compulsiva de histórias que misturam realidade e fantasia para a busca de atenção. Embora não possua diagnóstico independente, a condição pode causar prejuízos sociais e ocupacionais. O tratamento prioriza o vínculo de confiança e a análise da necessidade psicológica do indivíduo

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Mitomania é caracterizada pela criação compulsiva de histórias para busca de atenção e autovalorização
Domínio Público

Embora mentir seja um comportamento humano universal utilizado para evitar conflitos, proteger a intimidade ou obter vantagens sociais, existe uma distinção fundamental entre a mentira ocasional e a mentira patológica. Esta última, tecnicamente chamada de pseudologia fantástica ou mitomania, caracteriza-se pela criação persistente e compulsiva de histórias, tornando-se um traço marcante da interação social do indivíduo.

Apesar de estar descrita na literatura psiquiátrica há mais de cem anos, a mitomania ainda é vista como uma entidade controversa e não possui um diagnóstico independente nos principais sistemas de classificação atuais. No entanto, estudos recentes indicam que a condição pode gerar sofrimentos e prejuízos significativos nas esferas social e ocupacional, o que justifica sua análise como um fenômeno psicopatológico específico.

Características da narrativa mitômana

As histórias construídas por quem apresenta esse quadro geralmente misturam realidade e fantasia. Frequentemente, partem de fatos reais que são progressivamente ampliados e ornamentados para colocar o narrador em posições excepcionais, seja como protagonista de conquistas improváveis, vítima de eventos extraordinários ou centro de dramas intensos.

Um ponto crucial para a diferenciação clínica é que a mitomania não se confunde com o delírio. Quando confrontada com evidências incontestáveis, a pessoa com mentira compulsiva é capaz de reconhecer que os fatos narrados não aconteceram.

Uma revisão sistemática recente aponta que o fenômeno é heterogêneo, com motivações frequentemente ligadas à busca de atenção e à autovalorização. Além disso, a condição pode estar associada a diversos transtornos psiquiátricos, o que impede a generalização de que todo mitômano possua um transtorno de personalidade específico. A mitomania é, portanto, um fenômeno que pode se manifestar em diferentes contextos clínicos e organizações de personalidade.

O impacto nas relações interpessoais

A convivência prolongada com alguém que mente sistematicamente gera um processo de adaptação relacional. Inicialmente, amigos, familiares e colegas tendem a acreditar nos relatos, mas a descoberta de contradições e inconsistências altera a dinâmica do vínculo.

Com o tempo, o círculo social pode desenvolver a estratégia de ignorar ou tolerar certas histórias para evitar o desgaste emocional e conflitos repetitivos. Cria-se um paradoxo onde a mentira persiste mesmo após perder a capacidade de enganar: o indivíduo narra, os outros escutam, mas poucos acreditam, mantendo-se, ainda assim, a interação social.

Essa dimensão interpessoal pode, inclusive, assumir formas compartilhadas de pseudologia. Quando a mitomania se torna uma organização relacional, é provável que todos os envolvidos — inclusive quem conta a história — saibam que os fatos não são verdadeiros.

Abordagem terapêutica

Do ponto de vista do tratamento, a confrontação agressiva não é considerada a estratégia mais eficaz. Revisões científicas sugerem que a prioridade deve ser a construção de um vínculo de confiança, a escuta de apoio e o tratamento de comorbidades psiquiátricas.

A orientação clínica é evitar que as sessões se transformem em tribunais para validar a veracidade das afirmações. Em vez disso, torna-se mais relevante compreender a necessidade psicológica por trás da manutenção da narrativa do que simplesmente provar que ela é falsa.

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