Saúde

Mulher de 74 anos doa rim para genro com doença renal policística em São Paulo

23 de Junho de 2026 às 06:19

Pablo Aguiar Pinto, de 52 anos, deixou a hemodiálise após receber um transplante renal em maio de 2021. O órgão foi doado por sua sogra, Clotilde Gianotti, então com 74 anos, mediante autorização judicial. O paciente apresentava doença renal policística autossômica dominante

Mulher de 74 anos doa rim para genro com doença renal policística em São Paulo
Arquivo Pessoal

Um transplante renal realizado em maio de 2021 permitiu que Pablo Aguiar Pinto, atualmente com 52 anos, abandonasse a hemodiálise após enfrentar as complicações da doença renal policística autossômica dominante (DRPAD). A condição, de caráter genético e hereditário, afeta aproximadamente uma em cada mil pessoas, substituindo o tecido renal por cistos que podem expandir o órgão em até três vezes o seu tamanho original.

Diagnosticado em 2007, Pablo conviveu com a patologia por 15 anos sem limitações severas, seguindo o padrão da doença, que geralmente manifesta falência renal entre a quarta e a quinta década de vida. O histórico familiar era crítico, com a morte de oito ou nove primos devido a problemas renais. Quando a função renal de Pablo cessou em 2021, a busca por um doador vivo enfrentou a barreira da genética: por ser uma doença hereditária que pode pular gerações, parentes de sangue eram considerados doadores arriscados.

Essa restrição incluiu a esposa de Pablo, Luiza. A equipe médica optou por preservar os dois rins de Luiza para garantir que ela pudesse ser a doadora da filha do casal, caso a jovem desenvolva a DRPAD no futuro, já que o diagnóstico costuma ocorrer tardiamente. Tentativas de doação por parte de um amigo e de um cunhado também não tiveram sucesso.

A alternativa surgiu quando Clotilde Gianotti, sogra de Pablo e então com 74 anos, ofereceu-se para a doação. Apesar da idade, a nefrologista Maria Julia Nepomuceno, do Hospital Nove de Julho da Rede Américas, explicou que o critério decisivo não é a idade cronológica, mas a saúde geral, a função renal e a ausência de diabetes ou hipertensão, utilizando o índice de fragilidade para avaliar a viabilidade do candidato.

Após exames clínicos, psicológicos, de imagem e a prova cruzada, Clotilde apresentou compatibilidade de quase 80% e ausência de comorbidades. Como a legislação brasileira autoriza a doação automática apenas para cônjuges e parentes até o terceiro grau, o procedimento exigiu autorização judicial, concedida após análise médica e do serviço social.

A cirurgia ocorreu em 10 de maio de 2021, em salas vizinhas, com um intervalo de 15 minutos entre a retirada do órgão e o implante. A rapidez do processo, característica de transplantes com doador vivo, favorece a recuperação imediata do órgão. No dia seguinte, os exames de creatinina de Pablo registraram uma queda entre 30% e 50%, indicando que o novo rim já filtrava o sangue.

Clotilde, operada por laparoscopia, recebeu alta em dois dias. Pablo, por sua vez, não retornou às sessões de hemodiálise. Atualmente, ele mantém um acompanhamento anual e utiliza cerca de nove medicamentos diários, incluindo remédios para pressão alta e imunossupressores, que serão necessários permanentemente.

A nefrologista ressalta que o transplante funciona como tratamento e não como cura. O caso serve de alerta para a natureza silenciosa da doença renal crônica, que avança sem sintomas e atinge principalmente pessoas acima de 50 anos ou com quadros de diabetes e hipertensão, grupos que devem realizar exames de função renal periodicamente.

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