Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina têm risco maior de desenvolver eventos cardiovasculares graves
Mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) têm risco 4,4 vezes maior de sofrer eventos cardiovasculares graves, segundo estudo com 400 mil pacientes dos Estados Unidos publicado na The Lancet. A condição, ligada à resistência à insulina, eleva as chances de infarto e AVC independentemente de fatores como idade ou diabetes
Mulheres diagnosticadas com a síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) apresentam um risco 4,4 vezes maior de desenvolver eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC e doença arterial periférica, em comparação a mulheres sem a condição. A conclusão foi publicada na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health.
O estudo analisou dados de mais de 400 mil mulheres, com idades entre 18 e 50 anos, provenientes de um banco de dados dos Estados Unidos. A pesquisa focou na ocorrência de doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA), caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura que estreitam as artérias.
Impacto metabólico e risco cardíaco
A SOMP, que até maio de 2026 era denominada como síndrome dos ovários policísticos (SOP), é uma das condições hormonais mais frequentes em mulheres em idade reprodutiva. Embora seja frequentemente associada a sintomas ginecológicos, como acne, aumento de pelos, menstruação irregular e dificuldade para engravidar, a síndrome é, na verdade, uma condição metabólica e hormonal abrangente.
O principal motor desse risco é a resistência à insulina, presente em 85% dos casos, incluindo 75% das mulheres magras. Essa falha na resposta celular ao hormônio que controla o açúcar no sangue desencadeia a produção excessiva de andrógenos e altera hormônios como o luteinizante (LH) e o AMH. Esse processo gera um conjunto de complicações que incluem:
- Obesidade e gordura no fígado;
- Diabetes tipo 2 e pré-diabetes;
- Hipertensão e colesterol elevado.
Um dado central da pesquisa é que o risco cardiovascular elevado persiste mesmo quando os pesquisadores isolaram fatores tradicionais, como histórico familiar, idade ou a presença de diabetes e hipertensão. Isso indica que a SOMP, por si só, exige atenção redobrada à saúde do coração.
Prevenção e diagnóstico precoce
Desde 2023, recomendações internacionais orientam que a avaliação do risco cardiovascular seja feita logo no diagnóstico da SOMP. No entanto, essa prática ainda não está consolidada na rotina médica. Como a síndrome costuma ser identificada na juventude, o monitoramento cardiológico deve começar precocemente, sem esperar que a paciente atinja a idade habitual de surgimento de doenças cardíacas.
A urgência desse rastreamento é acentuada pelo cenário brasileiro, onde as doenças cardiovasculares representam a principal causa de morte entre as mulheres.
Diante dos resultados, os autores do estudo defendem a implementação de políticas públicas de saúde e a capacitação de profissionais para garantir atendimentos precoces. A adoção de hábitos de vida saudáveis é apontada como a primeira linha de cuidado para reduzir os riscos a longo prazo.
Apesar da robustez do volume de dados, a análise possui limitações, pois baseou-se em bancos de dados e não no acompanhamento direto de pacientes, além de ter um recorte geográfico específico, demandando a confirmação desses padrões em outras populações por meio de pesquisas locais.