Saúde

Não há evidências científicas de que o uso de perfumes no pescoço prejudique a tireoide

20 de Agosto de 2026 às 06:03

Não há evidências científicas de que aplicar perfumes no pescoço cause câncer ou danos à glândula tireoide. O uso de fragrâncias pode, contudo, provocar dermatite de contato, reações fototóxicas ou gatilhos para enxaquecas

-0:00
Não há evidências científicas de que o uso de perfumes no pescoço prejudique a tireoide
Ron Lach/Pexels

Não existem evidências científicas que comprovem que a aplicação de perfumes no pescoço cause danos à glândula tireoide ou aumente o risco de câncer. A discussão ganhou tração após a viralização de postagens em redes sociais que sugeriam que a proximidade da fragrância com a glândula, localizada na parte inferior frontal do pescoço, poderia provocar desregulações hormonais devido à absorção cutânea.

No entanto, a anatomia da região e a fisiologia da pele refutam essa tese. A tireoide fica protegida sob a pele e diversas camadas de tecido muscular e conjuntivo. A pele atua como uma barreira natural, e a absorção de qualquer substância depende de fatores como a composição química, a dose, o tempo de contato e a condição da pele, não havendo uma via direta ou seletiva que leve os componentes do perfume especificamente para a glândula.

A questão dos ftalatos e a saúde hormonal

Grande parte do debate centra-se nos ftalatos, substâncias químicas utilizadas em diversos produtos. No caso das fragrâncias, destaca-se o ftalato de dietila (DEP), usado como fixador e solvente. Embora existam estudos sobre a exposição a ftalatos, os resultados não permitem estabelecer a relação direta com o uso de perfumes no pescoço:

  • Uma revisão sistemática de 2024, com mais de 5.600 crianças e adolescentes, observou associações entre a exposição a ftalatos (de múltiplas fontes) e níveis de alguns hormônios da tireoide, mas os dados foram inconsistentes para outros hormônios.
  • Um estudo com 337 mulheres confirmou que usuárias de perfume apresentam níveis urinários mais altos de ftalato de monoetila (produto da degradação do DEP), mas a pesquisa não analisou danos à tireoide nem o local de aplicação do produto.

É importante notar que substâncias classificadas como disruptores endócrinos — que alteram o sistema hormonal — dependem de dose e via de exposição para causar danos. Como os ftalatos são eliminados rapidamente pela urina, o uso frequente renova a exposição, mas não implica necessariamente em acúmulo no organismo.

Riscos reais e reações cutâneas

Enquanto a ligação com a tireoide não é comprovada, a aplicação de fragrâncias na pele apresenta riscos dermatológicos documentados. A dermatite de contato alérgica, caracterizada por inflamação, coceira e erupções cutâneas, afeta entre 0,7% e 2,6% da população. Essa reação ocorre quando o sistema imune se torna sensibilizado a algum ingrediente.

Outros pontos de atenção incluem:

  • Reações fototóxicas: Alguns componentes, como o óleo de bergamota, podem causar reações semelhantes a queimaduras solares quando a pele exposta ao perfume é atingida por raios ultravioleta A (UVA).
  • Poiquilodermia de Civatte: Esta condição, que deixa a pele do pescoço com coloração marrom-avermelhada e vasos visíveis, é causada principalmente pela exposição solar prolongada. Embora a alergia a fragrâncias possa contribuir em alguns casos, não foi provado que os perfumes causem a doença.
  • Enxaquecas: Relatos clínicos indicam que perfumes podem atuar como gatilhos para crises de enxaqueca em pessoas predispostas.

Orientações de segurança e regulação

Em mercados como a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte, cosméticos passam por avaliações de segurança que consideram a concentração de ingredientes e a probabilidade de exposição. Alérgenos específicos devem ser nomeados nos rótulos acima de certas concentrações.

Para minimizar riscos, recomenda-se:

  1. Interromper o uso do produto caso surjam ardências ou erupções cutâneas.
  2. Não assumir que fragrâncias "naturais" são mais seguras, pois óleos essenciais também podem causar dermatite.
  3. Não confiar exclusivamente em rótulos "sem ftalatos", já que as substâncias substitutas não são automaticamente mais seguras.

A Cancer Research UK reforça que não há evidências de que o uso de perfumes cause câncer. Para a maioria dos usuários, não há motivo clínico para evitar a aplicação de fragrâncias na região do pescoço.

Notícias Relacionadas