Não há evidências científicas de que o uso de perfumes no pescoço prejudique a tireoide
Não há evidências científicas de que aplicar perfumes no pescoço cause câncer ou danos à glândula tireoide. O uso de fragrâncias pode, contudo, provocar dermatite de contato, reações fototóxicas ou gatilhos para enxaquecas
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Não existem evidências científicas que comprovem que a aplicação de perfumes no pescoço cause danos à glândula tireoide ou aumente o risco de câncer. A discussão ganhou tração após a viralização de postagens em redes sociais que sugeriam que a proximidade da fragrância com a glândula, localizada na parte inferior frontal do pescoço, poderia provocar desregulações hormonais devido à absorção cutânea.
No entanto, a anatomia da região e a fisiologia da pele refutam essa tese. A tireoide fica protegida sob a pele e diversas camadas de tecido muscular e conjuntivo. A pele atua como uma barreira natural, e a absorção de qualquer substância depende de fatores como a composição química, a dose, o tempo de contato e a condição da pele, não havendo uma via direta ou seletiva que leve os componentes do perfume especificamente para a glândula.
A questão dos ftalatos e a saúde hormonal
Grande parte do debate centra-se nos ftalatos, substâncias químicas utilizadas em diversos produtos. No caso das fragrâncias, destaca-se o ftalato de dietila (DEP), usado como fixador e solvente. Embora existam estudos sobre a exposição a ftalatos, os resultados não permitem estabelecer a relação direta com o uso de perfumes no pescoço:
- Uma revisão sistemática de 2024, com mais de 5.600 crianças e adolescentes, observou associações entre a exposição a ftalatos (de múltiplas fontes) e níveis de alguns hormônios da tireoide, mas os dados foram inconsistentes para outros hormônios.
- Um estudo com 337 mulheres confirmou que usuárias de perfume apresentam níveis urinários mais altos de ftalato de monoetila (produto da degradação do DEP), mas a pesquisa não analisou danos à tireoide nem o local de aplicação do produto.
É importante notar que substâncias classificadas como disruptores endócrinos — que alteram o sistema hormonal — dependem de dose e via de exposição para causar danos. Como os ftalatos são eliminados rapidamente pela urina, o uso frequente renova a exposição, mas não implica necessariamente em acúmulo no organismo.
Riscos reais e reações cutâneas
Enquanto a ligação com a tireoide não é comprovada, a aplicação de fragrâncias na pele apresenta riscos dermatológicos documentados. A dermatite de contato alérgica, caracterizada por inflamação, coceira e erupções cutâneas, afeta entre 0,7% e 2,6% da população. Essa reação ocorre quando o sistema imune se torna sensibilizado a algum ingrediente.
Outros pontos de atenção incluem:
- Reações fototóxicas: Alguns componentes, como o óleo de bergamota, podem causar reações semelhantes a queimaduras solares quando a pele exposta ao perfume é atingida por raios ultravioleta A (UVA).
- Poiquilodermia de Civatte: Esta condição, que deixa a pele do pescoço com coloração marrom-avermelhada e vasos visíveis, é causada principalmente pela exposição solar prolongada. Embora a alergia a fragrâncias possa contribuir em alguns casos, não foi provado que os perfumes causem a doença.
- Enxaquecas: Relatos clínicos indicam que perfumes podem atuar como gatilhos para crises de enxaqueca em pessoas predispostas.
Orientações de segurança e regulação
Em mercados como a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte, cosméticos passam por avaliações de segurança que consideram a concentração de ingredientes e a probabilidade de exposição. Alérgenos específicos devem ser nomeados nos rótulos acima de certas concentrações.
Para minimizar riscos, recomenda-se:
- Interromper o uso do produto caso surjam ardências ou erupções cutâneas.
- Não assumir que fragrâncias "naturais" são mais seguras, pois óleos essenciais também podem causar dermatite.
- Não confiar exclusivamente em rótulos "sem ftalatos", já que as substâncias substitutas não são automaticamente mais seguras.
A Cancer Research UK reforça que não há evidências de que o uso de perfumes cause câncer. Para a maioria dos usuários, não há motivo clínico para evitar a aplicação de fragrâncias na região do pescoço.