Nova molécula para obesidade reduz gordura hepática em quase 60% em estudo de fase 3
A molécula survodutida, da Boehringer Ingelheim, reduziu a gordura hepática em 60% e a visceral em 34% em estudos com adultos obesos. A substância combina a ação do GLP-1 com a ativação do receptor do glucagon, resultando em perda de peso de 16,6% em 76 semanas. Os testes indicaram a preservação da massa magra e a redução de marcadores de inflamação no fígado
A molécula experimental survodutida, desenvolvida pela Boehringer Ingelheim, propõe uma mudança de foco no tratamento da obesidade ao priorizar a redução da gordura hepática em vez de focar apenas na perda de peso total. Apresentada durante o encontro anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), em Nova Orleans, a substância atua de forma distinta de outras medicações da mesma classe, como a semaglutida e a tirzepatida.
Enquanto as canetas emagrecedoras convencionais agem sobre o GLP-1 para regular o apetite e a saciedade, a survodutida combina essa ação com a ativação do receptor do glucagon. Esse hormônio atua como administrador da energia estocada, agindo diretamente no metabolismo da gordura e no fígado, o que permite a queima de gordura visceral e hepática.
Dados de um estudo de fase 3, publicados na revista Nature Medicine, revelam que, entre 216 adultos com obesidade e gordura no fígado, a survodutida reduziu o acúmulo hepático em quase 60%. O levantamento indicou que 84% dos pacientes tiveram uma queda de pelo menos 30% da gordura no órgão, contra 24% no grupo que utilizou placebo. Além disso, 60% dos participantes finalizaram o estudo com os níveis de gordura hepática dentro da faixa normal, apresentando também recuo em marcadores de lesão e inflamação, como a enzima ALT.
A relevância desses resultados reside no fato de que a gordura ectópica — aquela instalada em locais inadequados, como o fígado — é metabolicamente ativa e inflamada. Esse quadro, atualmente classificado como doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) e, em sua forma inflamada, como esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), eleva os riscos de diabetes, doenças cardíacas, cirrose e câncer.
Outro estudo, publicado no New England Journal of Medicine com 725 adultos obesos e sem diabetes, utilizou ressonância magnética para mensurar a distribuição da gordura. Os resultados mostraram que a survodutida reduziu a gordura visceral em 34% (contra 12% do placebo) e a gordura hepática em 63%. Um ponto relevante foi a preservação da massa magra, indicando que a perda de peso ocorreu majoritariamente através da gordura. No período de 76 semanas, o emagrecimento atingiu 16,6% entre os pacientes que completaram o tratamento, índice inferior ao de concorrentes como a tirzepatida, mas acompanhado de melhoras na circunferência abdominal, nos triglicerídeos e na pressão arterial.
Apesar dos avanços, a comparação direta com outras moléculas permanece indireta, pois os estudos envolveram populações, critérios de avaliação e graus de obesidade distintos. Os efeitos colaterais da survodutida seguem o padrão da classe, com náuseas em 60% dos casos e vômitos em mais de 40%, geralmente leves ou moderados e concentrados no início do aumento da dose. Eventos graves foram ligeiramente mais frequentes que no grupo placebo, sem registro de óbitos.
As limitações dos ensaios incluem a curta duração, a baixa diversidade da população estudada e o foco em pacientes com a doença hepática em estágio inicial. Os impactos em quadros avançados serão avaliados em programas futuros.
Essa nova abordagem reflete uma transição na endocrinologia, onde a obesidade deixa de ser vista como um efeito colateral do tratamento do diabetes para se tornar o foco central. A tendência atual é o desenvolvimento de moléculas que combinem diferentes hormônios para tratar simultaneamente a obesidade e suas complicações em órgãos como o fígado, articulações e apneia do sono.