Novo medicamento injetável contra o HIV substitui a necessidade de comprimidos diários a cada seis meses
O medicamento injetável lenacapavir, administrado a cada seis meses, surge como alternativa à PrEP oral contra o HIV. A farmacêutica Gilead firmou acordo com o Global Fund para fornecer a droga a 2 milhões de pessoas em três anos, com distribuição iniciada na África do Sul em junho de 2026
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O uso do lenacapavir surge como uma alternativa estratégica para enfrentar a baixa adesão à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), especialmente em populações vulneráveis. Diferente dos métodos tradicionais, que exigem a ingestão diária de comprimidos antirretrovirais para manter a proteção contra o HIV, este novo medicamento é administrado via injeção a cada seis meses.
A transição para o modelo injetável visa solucionar a dificuldade de manutenção do tratamento em pessoas saudáveis. No caso da PrEP oral, a eficácia depende da consistência rigorosa; a perda de doses reduz a concentração do fármaco no organismo, expondo o usuário ao vírus. Além do esquecimento, fatores como o medo do estigma familiar, efeitos colaterais e a dificuldade de acesso a novas doses contribuem para a desistência. Dados indicam que, cerca de três meses após o início da PrEP em comprimidos, metade dos pacientes interrompe o uso, restando apenas um grupo reduzido ao final de um ano.
Mecanismo de ação e eficácia
O lenacapavir apresenta um funcionamento distinto das PrEPs convencionais. Enquanto a maioria dos medicamentos bloqueia as enzimas que o vírus utiliza para copiar seu material genético e inseri-lo nas células humanas, o lenacapavir ataca o capsídeo — a estrutura em forma de cone que protege o material genético do HIV.
Por ser a molécula mais potente conhecida contra o vírus, o medicamento mantém sua eficácia mesmo em baixas concentrações e por períodos prolongados, o que viabiliza a aplicação semestral e garante a adesão quase completa do paciente.
Distribuição e acesso global
A urgência na ampliação do uso desta tecnologia concentra-se em três grupos prioritários:
- Mulheres jovens e adolescentes em regiões da África;
- Homens gays no Ocidente;
- Comunidades gays vulneráveis na Ásia Central e Leste Europeu.
Na África do Sul, a distribuição para grupos de risco teve início em junho de 2026. A operação é fruto de um acordo firmado em julho de 2025 entre a farmacêutica Gilead e o Global Fund, prevendo o fornecimento do medicamento sem fins lucrativos para até 2 milhões de pessoas em três anos. Adicionalmente, em outubro de 2024, a Gilead autorizou a produção de versões genéricas em 120 países com alta taxa de infecção e recursos limitados.
Apesar desses avanços, a disponibilidade global permanece desigual. Países latino-americanos como Brasil, México, Peru e Argentina foram excluídos das iniciativas recentes de distribuição, mesmo tendo participado de ensaios clínicos. Organizações como a Médicos Sem Fronteiras alertam para a insuficiência de estoques e defendem que a Gilead venda a aplicação a um preço acessível, estimado em 40 dólares.
Impacto na redução de infecções
Modelos epidemiológicos aplicados ao Zimbábue, oeste do Quênia e África do Sul sugerem que a oferta de lenacapavir para entre 2% e 4% da população adulta, focando nos grupos de maior risco, poderia evitar de 12% a 18% das novas infecções em um período de dez anos.
Embora a medicação possa acelerar a redução da incidência do HIV, a eliminação da transmissão depende de preços acessíveis, canais de distribuição eficientes e, principalmente, da capacidade de identificar e alcançar pessoas que não se percebem em situação de risco, mas que estão vulneráveis à infecção.