Saúde

OMS classifica álcool como agente cancerígeno do mesmo grupo que o tabaco e o amianto

10 de Julho de 2026 às 06:10

A Organização Mundial da Saúde estima que o álcool cause 2,6 milhões de mortes anuais e o classifique como agente cancerígeno do Grupo 1. Pesquisas recentes refutam a existência de consumo seguro e associam a substância a riscos cardíacos, gastrointestinais e a sete tipos de câncer

OMS classifica álcool como agente cancerígeno do mesmo grupo que o tabaco e o amianto
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o consumo de álcool seja responsável por 2,6 milhões de mortes anualmente, o que representa quase 5% de todos os óbitos no mundo. Apesar da gravidade dos dados, a substância permanece profundamente integrada aos costumes sociais e tradições culturais, sendo onipresente em celebrações, eventos esportivos e encontros profissionais. Estima-se que 2,3 bilhões de pessoas consumam álcool globalmente, evidenciando um contraste entre a aceitação social da bebida e seus riscos documentados à saúde pública.

Evidências científicas recentes têm contestado a noção de "consumo seguro". Mesmo a ingestão moderada é agora vista como arriscada, impactando diversos sistemas orgânicos além do fígado, incluindo complicações cardíacas e gastrointestinais. No âmbito da segurança física, uma revisão de literatura de 2021 indicou que o consumo de duas doses padrão dobra as chances de lesões em acidentes com veículos motorizados e outros incidentes. Já o consumo episódico excessivo, conhecido como *binge drinking*, pode elevar esse risco de 20 a 50 vezes, a depender da quantidade ingerida e da natureza da lesão.

Um dos pontos mais críticos e menos difundidos é a relação entre o álcool e o desenvolvimento de neoplasias. A OMS classifica a substância como um agente cancerígeno do Grupo 1, a mesma categoria do amianto e do tabaco, indicando evidências suficientes de que causa câncer em seres humanos. Um comunicado do Cirurgião-Geral dos EUA, publicado em 2025, destacou que o álcool eleva o risco de ao menos sete tipos de câncer, com destaque para os casos de mama, colorretal, fígado, bucal, esôfago e laringe. No entanto, menos da metade dos americanos reconhece a bebida como um fator de risco, especialmente em relação ao câncer de mama.

A percepção sobre os benefícios do álcool também mudou. Entre a década de 1990 e o início dos anos 2000, estudos sugeriam que o consumo moderado poderia proteger o sistema cardiovascular. Contudo, pesquisas mais rigorosas realizadas na última década refutaram essa tese, apontando que tais benefícios eram, na verdade, reflexos de estilos de vida mais saudáveis dos bebedores moderados, e não um efeito protetor da substância.

Essas atualizações científicas geraram tensões nas diretrizes oficiais. A versão das Diretrizes Alimentares para os Americanos para o período de 2025-2030, atualizada em janeiro de 2026, removeu a recomendação de limitar o consumo a uma dose diária para mulheres e duas para homens, além de omitir a discussão explícita sobre o câncer. A mudança foi criticada por especialistas em saúde pública, que argumentam que a nova redação minimiza os danos da substância. O Dr. Mehmet Oz, administrador dos Centros de Serviços do Medicare e do Medicaid, chegou a descrever o álcool como um "lubrificante social", visão contestada por profissionais da medicina das dependências, que alertam que essa abordagem ignora o risco de dependência química e psicológica em favor de efeitos sociais temporários.

O cenário atual do álcool é comparado ao histórico do tabagismo nos Estados Unidos. Em 1965, 42,4% da população fumava, número que caiu para 11,6% em 2022. Essa redução foi resultado de um conjunto de ações: evidências científicas, campanhas educativas, rótulos de advertência, impostos mais altos e restrições publicitárias. O exemplo demonstra que a aceitação social de uma substância legal não é sinônimo de segurança e que normas culturais podem ser transformadas diante de fatos clínicos.

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