Saúde

Ondas de calor foram associadas a cerca de 120 mil mortes no Brasil entre 2000 e 2019

17 de Junho de 2026 às 15:09

Levantamento dos projetos ProAdapta e Ciência&Clima associou ondas de calor a cerca de 120 mil mortes no Brasil entre 2000 e 2019. Idosos com 65 anos ou mais concentraram 80% dos óbitos, com destaque para causas cardiovasculares e respiratórias. O estudo analisou dados do SUS em 5.566 municípios

Ondas de calor foram associadas a cerca de 120 mil mortes no Brasil entre 2000 e 2019
AP Photo/Charlie Riedel

Ondas de calor no Brasil foram associadas a cerca de 120 mil mortes entre os anos de 2000 e 2019, conforme revela um levantamento inédito que cruzou dados de temperaturas extremas com registros de internações e óbitos do Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa, coordenada pelos projetos ProAdapta (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima) e Ciência&Clima (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), contou com a participação de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O estudo analisou 19,8 milhões de mortes por causas naturais em 5.566 municípios, excluindo acidentes e violência. Desse total, 119.643 óbitos foram vinculados a episódios de calor extremo, o que representa 0,6% das mortes no período e uma média anual de 6 mil casos que poderiam ter sido evitados. Os autores ressaltam que o calor nem sempre é a causa única do óbito, mas atua como um fator de agravamento de doenças preexistentes. Devido ao uso de critérios conservadores na definição das ondas de calor e a possíveis erros de medição térmica, a estimativa real de impactos pode ser ainda superior.

A análise indica que as altas temperaturas impactam a saúde de formas distintas. Entre 2010 e 2019, houve aumento nas internações por problemas geniturinários, como infecções urinárias e insuficiência renal, além de doenças respiratórias, com destaque para a pneumonia. No caso de doenças cardiovasculares, observou-se um fenômeno particular: enquanto as internações diminuíram durante as ondas de calor na maioria das regiões, as mortes por causas cardíacas subiram. A hipótese é que quadros graves evoluam rapidamente, levando ao óbito antes da chegada ao hospital. No total, as ondas de calor foram associadas a 33.858 mortes cardiovasculares e 24.225 respiratórias. Embora o volume absoluto seja maior nas cardíacas, o impacto proporcional foi mais severo nas respiratórias, representando 1% de todos os óbitos dessa categoria, contra 0,53% nas cardiovasculares.

A vulnerabilidade aos eventos térmicos é desigual. Idosos com 65 anos ou mais foram os mais afetados, concentrando 97.167 mortes (cerca de 80% do total), devido à menor capacidade de regulação térmica do corpo, presença de doenças crônicas e uso de medicamentos que interferem na hidratação. Entre as mulheres, o risco de morte foi superior ao dos homens em todas as zonas climáticas, variando de 6% a 16%, enquanto nos homens a variação ficou entre 4% e 9%.

O fator socioeconômico também se mostrou determinante. Pessoas sem qualquer escolaridade apresentaram aumento de risco de até 19% em certas zonas, enquanto quem possui 12 anos ou mais de estudo teve alta entre 1% e 7%. Para os pesquisadores, a escolaridade reflete a renda e a qualidade da moradia. Já entre crianças menores de 10 anos, o impacto principal ocorreu nas internações por gastroenterite e diarreia, possivelmente ligadas à desidratação e contaminação de alimentos e água.

Quanto à raça e cor, os dados nacionais indicam risco maior para pessoas brancas, porém os autores alertam que isso pode ser fruto de falhas no preenchimento de formulários em cidades pequenas. Em regiões metropolitanas, onde o registro é mais confiável, o risco entre pessoas pretas iguala-se ou supera o de pessoas brancas, sugerindo que as desigualdades raciais podem estar subestimadas.

Regionalmente, o estudo identificou três padrões: no Norte e Centro-Oeste, predominam eventos frequentes e longos, gerando estresse térmico prolongado e afetando rins e líquidos corporais. No Sul e Sudeste, as ondas são mais curtas, porém mais intensas em relação ao clima local, provocando respostas agudas como aceleração cardíaca. O Nordeste apresenta um comportamento intermediário, com aumento de frequência e duração na década de 2010.

Em termos geográficos, São Paulo registrou o maior volume absoluto de mortes (30.813), enquanto Roraima teve o menor (167). Contudo, proporcionalmente, o Amapá apresentou os maiores percentuais, atingindo 1,77% nas mortes por doenças respiratórias.

Diante da tendência de que as ondas de calor se tornem mais frequentes e intensas na maioria dos municípios, Sávio Raeder, analista do MCTI e supervisor do projeto Ciência&Clima, enfatiza a urgência de priorizar grupos sociais e territórios vulneráveis. O estudo sugere que o SUS adote medidas como alertas antecipados, integração de dados climáticos e de saúde, monitoramento de urgências para detectar picos de demanda e a melhoria dos registros de escolaridade e raça para refinar as políticas públicas.

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