Paciente em Minas Gerais recebe doação de sangue raro transportada do Ceará por avião
Um paciente em Juiz de Fora (MG) recebeu uma transfusão de sangue raro vinda do Ceará após a identificação de apenas seis doadores compatíveis no Brasil. A bolsa foi transportada via aérea por meio de um novo acordo entre o Ministério da Saúde, Anac e companhias aéreas
Um paciente internado em Juiz de Fora (MG), que passou por um transplante de rim e apresenta baixa hemoglobina, mobilizou uma operação logística interestadual para receber uma transfusão de sangue raro. O organismo do paciente produz anticorpos contra o Jsb, um marcador presente na superfície das hemácias que a grande maioria da população possui. Como ele não tem essa "etiqueta" sanguínea, seu sistema imunológico ataca quase todos os doadores, tornando compatível apenas o sangue de quem também não possua o marcador e seja do tipo O.
A incompatibilidade foi detectada durante os testes de segurança obrigatórios, nos quais o laboratório mistura o sangue do paciente com o do doador para verificar a ocorrência de aglutinação. Esse procedimento evita reações inflamatórias graves que podem surgir mesmo após a transfusão.
Logística de transporte e doação
Diante da raridade do caso, o Ministério da Saúde consultou o cadastro nacional de doadores raros, que conta com 2.032 pessoas, e identificou apenas seis indivíduos no Brasil com a compatibilidade necessária. Um doador residente no Ceará foi acionado na noite de quarta-feira (7) e realizou a doação na quinta-feira (8), no Hemocentro do Ceará. Para viabilizar a entrega, o centro de coleta acelerou os exames de triagem para doenças como hepatites B e C e HIV.
A bolsa de 450 mililitros foi transportada em uma caixa térmica com capacidade de refrigeração por 24 horas. O material viajou na cabine de um avião comercial, sob a responsabilidade do piloto, partindo do Ceará às 18h de quinta-feira com destino ao aeroporto de Confins, em Minas Gerais. A previsão de chegada era às 5h de sexta-feira (9), seguida de transporte terrestre imediato ao hospital para a transfusão.
Novo protocolo de transporte aéreo
Este caso integra as primeiras aplicações de um novo acordo de cooperação técnica entre o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e companhias aéreas. O arranjo, que anteriormente era restrito ao transporte de órgãos como coração, pulmão, fígado e rim, está sendo formalizado para incluir bolsas de sangue raro na cabine dos aviões, sem custos para hospitais ou hemocentros.
Estratégias para agilizar a assistência
Para evitar a dependência de buscas emergenciais por doadores aptos — que devem respeitar intervalos de 60 dias para homens e 90 dias para mulheres entre as doações —, o Ministério da Saúde implementa duas novas frentes de atuação:
- Congelamento de bolsas: Em negociação com a vigilância sanitária, a expectativa é que, a partir de janeiro, bolsas de sangue raro possam ser congeladas e armazenadas, eliminando a necessidade de localizar e convocar um doador a cada nova demanda.
- Rede Mundial de Sangue Raro: O Brasil deve ingressar, ainda este mês, em uma rede internacional de cooperação. A adesão permitirá que o país solicite bolsas de outros países para pacientes sem doadores compatíveis em território nacional, além de oferecer auxílio a outras nações.
Como medida de precaução para o paciente de Juiz de Fora, outros dois doadores do cadastro nacional já foram acionados para eventuais novas transfusões.