Saúde

Pesquisadora analisa a construção social e a sexualização dos seios em novo livro

27 de Maio de 2026 às 09:07

A socióloga Sarah Thornton publicou o livro Tits Up, resultado de uma pesquisa de quatro anos com mais de 200 mulheres sobre a percepção dos seios. A obra analisa a construção social da sexualização dos seios no Ocidente, a influência da cultura e da religião e a função biológica da amamentação

Pesquisadora analisa a construção social e a sexualização dos seios em novo livro
Getty Images via BBC

A socióloga e pesquisadora Sarah Thornton, com passagens acadêmicas pela Universidade de Sussex e pela Universidade da Califórnia em Berkeley, transformou a experiência pessoal de enfrentar a possibilidade de câncer de mama em um estudo abrangente sobre a percepção dos seios na sociedade. Após sete anos de exames e biópsias que revelaram células atípicas, e diante de um histórico familiar da doença, a autora optou por uma mastectomia dupla preventiva em 2018.

O processo de aceitação da cirurgia e a sensação de perda de algo fundamental motivaram Thornton a realizar uma pesquisa de quatro anos. O trabalho envolveu entrevistas com mais de 200 mulheres, incluindo especialistas, e visitas a locais diversos, como bancos de leite, consultórios cirúrgicos, ateliês de sutiãs e clubes de strippers. O resultado desse levantamento é o livro *Tits Up: What Our Beliefs About Breasts Reveal About Life, Love, Sex and Society*.

Na obra, a autora analisa como a sexualização dos seios no Ocidente é um fenômeno relativamente recente, com raízes na França do século 15. Durante o Renascimento, a aristocracia utilizava amas de leite, o que permitiu que os seios de amantes que não amamentavam se tornassem fetiches. Essa percepção expandiu-se pela Europa e chegou aos Estados Unidos, onde foi impulsionada por Hollywood após a Segunda Guerra Mundial, com figuras como Sophia Loren, Jane Russell e Jayne Mansfield. A tendência culminou na valorização de bustos volumosos e no desenvolvimento dos primeiros implantes de silicone nos anos 1960.

Thornton argumenta que essa construção social gera impactos psicológicos profundos. A pesquisadora relata que a própria adolescência foi marcada por traumas, incluindo episódios de assédio sexual aos 15 e 16 anos, decorrentes de um desenvolvimento físico precoce que a expôs ao olhar masculino antes que estivesse preparada. Segundo a socióloga, a associação entre seios grandes e disponibilidade sexual persiste, tornando adolescentes mais vulneráveis ao assédio.

A análise aponta que a visão ocidental não é universal. Estudos antropológicos da década de 1980 indicam que comunidades no sudeste da Ásia e na África não compartilham a mesma carga erótica atribuída aos seios. No Mali, por exemplo, existe a percepção de que a atração sexual de adultos por seios femininos seja antinatural.

A obra também discute a influência da religião e a disparidade de gênero na percepção do corpo. Thornton observa que, enquanto a nudez masculina é frequentemente aceita e até sacralizada em artes e igrejas — como nas representações de Jesus Cristo —, a parte superior do corpo feminino é frequentemente vista como profana, o que contribui para a marginalização da mulher.

Do ponto de vista biológico e evolutivo, a autora enfatiza que a função primordial dos seios é a nutrição dos bebês. Ela destaca a amamentação como um vínculo extraordinário de amor, mencionando a prática universal de cooperação feminina, onde mulheres amamentam filhos de outras em casos de doença ou morte da mãe. Como exemplo dessa solidariedade, o livro cita Elysia, que, apesar de ter sofrido abusos sexuais e optado por não amamentar seu filho para evitar traumas, doou centenas de litros de leite a bancos de leite para auxiliar bebês prematuros.

A pesquisa de Thornton revela ainda que cerca de 40% das mulheres ocidentais estão insatisfeitas com seus seios, muitas vezes por internalizarem o olhar masculino ao se observarem no espelho. A autora defende que o movimento feminista, embora tenha conquistado avanços na criminalização da violação e nos direitos reprodutivos, ainda precisa expandir a consciência sobre a autonomia e a propriedade da mulher sobre a parte superior de seu corpo.

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