Pesquisadores brasileiros desenvolvem terapia contra o câncer mais barata para viabilizar acesso pelo SUS
Pesquisadores do INCA, Fiocruz e UnB desenvolveram uma alternativa de terapia CAR-T humanizada e de menor custo para o SUS. A versão H1 da tecnologia mostrou eficiência na eliminação de células cancerosas em testes laboratoriais e controle duradouro da doença em camundongos. O projeto visa tratar cânceres hematológicos, como a leucemia linfoblástica aguda de células B
A imunoterapia consolidou-se como o quinto pilar no combate ao câncer, com destaque para a terapia de células T, conhecida como CAR-T. Esse tratamento transformou o prognóstico de pacientes com linfoma e leucemia que não respondiam a terapias convencionais, elevando a sobrevida global em três anos de 10% para 59%, além de aumentar a sobrevida livre de progressão de 6% para 48%, conforme dados publicados no periódico Blood Advances.
O funcionamento do método consiste na coleta das células de defesa do próprio paciente, que passam por uma reprogramação genética para identificar e destruir as células tumorais. Ao retornar ao organismo, esse medicamento vivo e personalizado tem a capacidade de se multiplicar e manter a ação terapêutica prolongada.
Desenvolvimento de tecnologia nacional para o SUS
Apesar da eficácia, a disseminação do tratamento enfrenta barreiras financeiras devido ao alto custo de proteínas de reconhecimento derivadas de anticorpos de camundongo e de vetores virais. Para viabilizar o acesso via Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em parceria com a Fiocruz e a Universidade de Brasília (UnB), desenvolveram uma alternativa tecnológica mais barata e escalável.
O projeto, detalhado na revista Frontiers in Immunology, focou na criação de dois produtos de CAR-T anti-CD19 humanizados, utilizando um sistema não-viral. O CD19 é a proteína-alvo localizada na superfície de linfócitos B e outras células da linhagem B, sendo crucial no combate a cânceres hematológicos.
Resultados dos testes e a versão H1
A inovação consistiu em modificar a parte do CAR que reconhece o tumor, tornando-a semelhante a uma proteína humana. Essa "humanização" visa evitar que o sistema imunológico do paciente identifique o tratamento como um corpo estranho e o elimine.
Nos ensaios laboratoriais, as versões humanizadas demonstraram a mesma eficiência que a terapia original na eliminação de células cancerosas, mesmo em tumores com baixa presença de proteína CD19. No entanto, os testes em camundongos revelaram desempenhos distintos entre as duas versões:
- Versão H1: Controlou o câncer de forma duradoura, mantendo a sobrevida dos animais em níveis comparáveis ao tratamento original.
- Versão H2: Apresentou ligação mais fraca ao CD19 e sinais de "esgotamento" das células T, perdendo a capacidade de ataque ao tumor.
Devido a esses resultados, a versão H1 foi identificada como a mais promissora para a transição para testes em humanos. A iniciativa busca oferecer novas perspectivas para pacientes com leucemia linfoblástica aguda de células B (LLA-B), especialmente adultos, reduzindo a dependência de insumos importados e caros.
O estudo contou com o suporte financeiro de agências como Decit-CNq, Capes, Faperj, Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal e Programa Inova Fiocruz.