Saúde

Pesquisadores brasileiros propõem modelo de estudo para compreender a neurodegeneração da esclerose múltipla

01 de Agosto de 2026 às 09:02

Pesquisadores brasileiros propuseram, em estudo publicado na revista Brain, a utilização da mielopatia associada ao HTLV-1 como modelo para compreender a neurodegeneração da esclerose múltipla. A estratégia visa identificar processos biológicos e desenvolver novas formas de neuroproteção e biomarcadores para a fase progressiva da doença

Pesquisadores brasileiros propõem modelo de estudo para compreender a neurodegeneração da esclerose múltipla
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A esclerose múltipla (EM) é uma condição neurológica crônica caracterizada pelo ataque do sistema imunológico às estruturas do sistema nervoso central. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença afeta 2,9 milhões de pessoas globalmente, sendo que, no Brasil, o Ministério da Saúde estima a existência de 40 mil casos. A patologia manifesta-se predominantemente em mulheres e em adultos jovens, na faixa etária entre 20 e 50 anos.

O diagnóstico da EM é complexo e exige a integração de múltiplos fatores, pois não existe um exame único e definitivo. Para a confirmação, neurologistas analisam a história clínica, realizam a avaliação física e utilizam exames de ressonância magnética e a análise do líquor (líquido cefalorraquidiano). Esse processo torna-se ainda mais difícil em casos de formas progressivas, onde a perda neural ocorre de maneira lenta, gradual e silenciosa.

Modelo de estudo para neurodegeneração

Para aprofundar a compreensão sobre a esclerose múltipla, que possui causas multifatoriais envolvendo genética, ambiente e infecções virais — como a do vírus Epstein-Barr —, pesquisadores brasileiros desenvolveram uma estratégia de comparação com outra patologia: a mielopatia associada ao HTLV-1 (HAM/TSP).

O HTLV-1 é um retrovírus da mesma família do HIV, compartilhando vias de transmissão, embora não cause a Aids. Enquanto a maioria dos infectados não apresenta sintomas, uma pequena parcela desenvolve uma inflamação crônica e progressiva na medula espinhal. A vantagem científica desse modelo é que, diferentemente da EM, o gatilho inicial da inflamação no HTLV-1 é conhecido (a infecção viral persistente), o que permite observar detalhadamente como a inflamação leva à morte de neurônios e à perda de fibras nervosas.

Avanços científicos e perspectivas terapêuticas

Um estudo liderado por brasileiros e publicado no periódico internacional Brain propõe que a mielopatia pelo HTLV-1 sirva como um modelo translacional para entender a neurodegeneração progressiva. O trabalho consistiu em uma revisão científica abrangente de pesquisas publicadas entre 1990 e 2025 em bases como PubMed e Embase, integrando dados de biologia molecular, imunologia, biomarcadores e neuroimagem.

Atualmente, a neurologia consegue controlar com eficácia os surtos agudos da esclerose múltipla, mas a interrupção da piora lenta e contínua, que gera a incapacitação do paciente, permanece como o principal desafio.

Embora a pesquisa não apresente um novo fármaco imediato, ela estabelece um caminho conceitual para:

  • Identificar processos biológicos que contribuem para a esclerose múltipla progressiva;
  • Desenvolver novas estratégias de neuroproteção;
  • Utilizar biomarcadores para antecipar a evolução da doença;
  • Acelerar a testagem de medicamentos voltados especificamente para a fase progressiva.

O estudo foi conduzido por Marcus Tulius Silva, que declarou não possuir vínculos financeiros ou consultorias com empresas que possam se beneficiar da publicação, mantendo apenas seu cargo acadêmico.

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