Pesquisadores romenos descrevem caso raro de endometriose cerebral que causava crises epilépticas em mulher
Pesquisadores da Romênia relataram um caso de endometriose cerebral presumida em uma mulher de 41 anos que apresentava crises epilépticas sincronizadas ao ciclo menstrual. O diagnóstico baseou-se em exames de imagem e na resposta positiva ao tratamento com hormônios sintéticos, que eliminou a lesão no hipocampo
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Pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia, descreveram um caso raro de endometriose cerebral presumida em uma mulher de 41 anos. O relato, publicado no Journal of Clinical Medicine em 11 de setembro, detalha como a presença de tecido semelhante ao do útero no cérebro pode ter desencadeado crises epilépticas.
A paciente começou a apresentar episódios de perda de consciência, olhar fixo e lapsos de memória em fevereiro de 2019. Após seis meses de monitoramento por meio de um diário, constatou-se que as convulsões ocorriam exclusivamente durante o período menstrual.
Diagnóstico e evolução clínica
Uma ressonância magnética realizada em agosto de 2019 identificou uma lesão no hipocampo, região cerebral responsável pela memória e atividade epiléptica. Inicialmente, a área clara e o inchaço nas regiões vizinhas levaram a suspeitas de tumor, infecção ou má-formação do córtex cerebral.
Outros exames, como testes de raciocínio e eletroencefalograma, apresentaram resultados normais. Durante 18 meses, a paciente utilizou medicamentos antiepilépticos, mas as crises persistiram. Em 2020, um novo exame de imagem revelou um nódulo de aproximadamente um centímetro que absorvia contraste, além de um ponto escuro sugestivo de acúmulo de cálcio ou ferro proveniente de sangramentos antigos.
A suspeita de endometriose ganhou força devido à característica hemorrágica da lesão e à sincronia das crises com o ciclo menstrual. Em 2021, foi iniciado um tratamento com hormônios sintéticos semelhantes à progesterona — dienogeste e desogestrel. Após três meses de terapia hormonal, os medicamentos antiepilépticos foram suspensos e os sintomas neurológicos desapareceram. Em março de 2026, uma nova ressonância confirmou que a lesão não era mais visível.
A relação entre hormônios e epilepsia
O quadro da paciente é classificado como epilepsia catamenial, condição que afeta entre um terço e metade das mulheres em idade fértil com epilepsia. Esse fenômeno ocorre devido ao equilíbrio hormonal: enquanto o estrogênio aumenta a excitabilidade dos neurônios, a progesterona atua como um moderador da atividade neuronal.
No padrão perimenstrual, as crises costumam ocorrer entre três dias antes e três dias após o início da menstruação, período em que a queda nos níveis de progesterona reduz esse efeito inibidor. No entanto, essa oscilação hormonal pode provocar convulsões mesmo sem a presença de endometriose.
Natureza da doença e hipóteses médicas
A endometriose ocorre quando o tecido do endométrio se implanta fora do útero. Embora seja comum em órgãos como ovários e intestino, a ocorrência no cérebro é raríssima, com apenas oito casos publicados na literatura desde 1987.
Existem três hipóteses principais para a chegada do tecido ao cérebro:
- Transformação celular: Células de outros órgãos se transformariam em tecido endometrial.
- Disseminação: Células viajariam via corrente sanguínea ou vasos linfáticos.
- Origem embrionária: O tecido já estaria presente desde a formação do embrião, reagindo apenas com o início da vida menstrual.
Limitações do diagnóstico
O termo "presumida" é utilizado porque não foi realizada a biópsia da lesão, devido ao alto risco de retirar material do hipocampo. Assim, o diagnóstico baseou-se na resposta positiva ao tratamento hormonal e na evolução das imagens de ressonância.
Especialistas alertam que a melhora clínica é um indício, mas não uma prova definitiva, já que o bloqueio do ciclo menstrual eliminaria as crises independentemente da existência de um foco de endometriose. Outras possibilidades, como tumores de crescimento lento ou inflamações do sistema de defesa, também não puderam ser totalmente descartadas.
O tratamento hormonal foi interrompido em setembro de 2025 e as crises não retornaram. O caso serve como referência para que médicos investiguem a relação entre o ciclo menstrual e convulsões, considerando a terapia hormonal como uma alternativa antes de intervenções cirúrgicas.