Saúde

República Democrática do Congo enfrenta surto de variante rara de Ebola sem vacina aprovada

23 de Maio de 2026 às 06:11

A República Democrática do Congo e Uganda registram 84 casos de Ebola, com oito óbitos, causados pela variante Bundibugyo. A OMS classificou a situação como emergência de saúde internacional, destacando a ausência de vacinas e a dificuldade de diagnóstico para esta cepa

A República Democrática do Congo enfrenta um novo avanço rápido do Ebola, evidenciando que a iminência de surtos permanece como um desafio global. Atualmente, há 84 casos confirmados da doença — sendo 82 no território congolês e dois em Uganda — e oito óbitos confirmados. O cenário é agravado por 750 casos sob investigação e 177 mortes suspeitas.

O surto atual é provocado pela variante Bundibugyo, uma cepa rara com registros anteriores apenas entre 2007 e 2008, e em 2012. Esta variante apresenta maior letalidade que as anteriores e impõe dificuldades diagnósticas, pois os testes rápidos convencionais são menos eficazes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) relatou que a escassez de testes específicos retarda a resposta, com a região afetada conseguindo processar apenas seis exames por hora para a identificação desta cepa. Além disso, não existem vacinas ou tratamentos aprovados para a variante Bundibugyo.

A complexidade do manejo sanitário é intensificada por fatores humanitários. A região convive com conflitos armados ativos, que causaram 7 mil mortes em janeiro de 2025. O deslocamento populacional é massivo: em setembro do ano passado, 8,2 milhões de pessoas estavam deslocadas, volume que a ACNUR projeta chegar a 9 milhões até o fim de 2026, incluindo 5,8 milhões de deslocados internos.

A resposta ao vírus baseia-se em protocolos consolidados desde a epidemia da África Ocidental (2014-2016), que encerrou com 11.325 mortes em sete países. As medidas vigentes incluem o isolamento e tratamento de pacientes, rastreamento de contatos, busca ativa de casos, fortalecimento da saúde local, engajamento comunitário e a realização de sepultamentos seguros. A testagem foi intensificada, e a OMS informou que, duas semanas após a declaração do surto, mais de 90% dos casos confirmados já estavam sob monitoramento.

Houve avanços técnicos no controle da doença, como a melhoria no treinamento para a gestão da circulação de pessoas em áreas suspeitas. Em 2022, a OMS publicou diretrizes com recomendações específicas de tratamento para profissionais de saúde, indicando medicamentos com eficácia comprovada para a infecção.

Entretanto, barreiras culturais e religiosas ainda dificultam o combate. Rituais funerários que envolvem a lavagem dos corpos e o contato direto de familiares com os cadáveres são pontos críticos. Para mitigar esse impacto, a estratégia atual foca na construção de confiança entre comunidades locais, organizações não governamentais e agentes de saúde, evitando a imposição de procedimentos.

A OMS classificou a situação na República Democrática do Congo como uma emergência de saúde internacional, embora não como uma emergência pandêmica. O risco de propagação global é considerado baixo, mas é elevado nos níveis nacional e regional. A principal preocupação reside na mobilidade populacional, que pode facilitar a disseminação internacional. Sobre isso, ressalta-se que restrições severas de viagem ou fechamento de fronteiras são ineficazes e prejudiciais, pois impedem a chegada de suprimentos e equipes especializadas. A expectativa é que os números de casos e óbitos cresçam à medida que mais profissionais e insumos cheguem ao local para a realização de testes.

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