Saúde

Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide é uma das causas mais comuns de abortos recorrentes

05 de Agosto de 2026 às 06:04

A Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF) é uma condição autoimune que causa coágulos sanguíneos, podendo provocar abortos recorrentes, trombose e AVC. O diagnóstico ocorre via exames de sangue e o tratamento com heparina e ácido acetilsalicílico pode elevar para 90% a chance de nascimentos saudáveis

Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide é uma das causas mais comuns de abortos recorrentes
Arquivo pessoal / Alê Riemer

A Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF) é uma condição autoimune que figura entre as três causas mais comuns de abortos recorrentes. A doença caracteriza-se pela produção de anticorpos que estimulam a formação de coágulos sanguíneos, os quais podem obstruir veias e artérias, além de comprometer a circulação na placenta durante a gravidez.

Quando ocorre a obstrução dos vasos placentários, o feto deixa de receber nutrientes, oxigênio e sangue de maneira adequada. Esse cenário eleva as chances de morte fetal intrauterina, aborto, restrição do crescimento fetal, pré-eclâmpsia e parto prematuro. Além disso, os anticorpos prejudicam a própria formação dos vasos da placenta, dificultando o desenvolvimento do bebê.

Riscos e Diagnóstico

Para além das complicações na gestação, a SAF pode provocar trombose venosa profunda e acidente vascular cerebral (AVC), inclusive em indivíduos com menos de 50 anos. Estima-se que entre 1% e 5% da população possua os anticorpos antifosfolípides, embora nem todos desenvolvam a forma clínica da doença.

A investigação diagnóstica não integra o pré-natal de rotina para mulheres sem histórico de trombose ou perdas gestacionais. O diagnóstico é confirmado por meio de exames de sangue que buscam três grupos de anticorpos:

  • Anticoagulante lúpico;
  • Anticardiolipina (IgG e IgM);
  • Anti-beta-2-glicoproteína I (IgG e IgM).

Para a confirmação da síndrome, os resultados alterados devem ser repetidos após alguns meses. A análise é recomendada especialmente para mulheres com perdas fetais tardias sem causa aparente, perdas gestacionais repetidas ou pessoas jovens que sofreram trombose sem fatores de risco clássicos.

Tratamento e Eficácia

O controle da doença geralmente combina o uso de heparina de baixo peso molecular (como a enoxaparina) e ácido acetilsalicílico em baixa dose. Essa terapia reduz a formação de coágulos e pode elevar para até 90% a probabilidade de nascimento de um bebê saudável.

É fundamental que o uso de aspirina ocorra apenas sob indicação médica, pois a automedicação pode aumentar o risco de hemorragias em casos de cirurgias de emergência ou acidentes. Complementarmente, é indicado o controle de fatores que agravam a trombose, como tabagismo, excesso de peso e colesterol elevado.

Impactos no Recém-Nascido

Bebês que nascem prematuramente ou com restrição de crescimento devido à insuficiência placentária grave podem apresentar quadros de hipoglicemia, icterícia, sepse, síndrome do desconforto respiratório e dificuldade de alimentação ou regulação térmica. Tais crianças demandam acompanhamento pediátrico estruturado desde o nascimento, pois possuem maior risco de doenças metabólicas, cardiovasculares e alterações no desenvolvimento neurológico.

Desafios no Acesso ao Diagnóstico

Apesar de ser tratável, a SAF é frequentemente subdiagnosticada. Entre as causas estão a baixa divulgação da síndrome, o custo dos exames, a falta de familiaridade de alguns profissionais com a patologia e a dificuldade em reunir o histórico obstétrico completo das pacientes.

O impacto do diagnóstico tardio é ilustrado por casos como o de Úrsula, moradora do Rio de Janeiro. Após perder a primeira filha com 35 semanas e ter um segundo filho prematuro com 31 semanas (pesando 1,72 kg), ela descobriu a SAF ao comparar infartos placentários em ambas as gestações. Com o tratamento adequado, Úrsula conseguiu ter mais dois filhos nascidos com 40 semanas e peso saudável.

Outro exemplo é o de Raquel Devisati, de São Paulo, que enfrentou perdas gestacionais e trombose antes de ser diagnosticada. Mesmo com a terapia, sofreu uma quarta perda, vindo a concretizar a maternidade posteriormente por meio da adoção. Atualmente, aos 51 anos, Raquel mantém a doença controlada com anticoagulantes e acompanhamento médico.

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