Saúde

Sociedade Internacional de Aids eleva para 13 o número de casos de remissão do HIV

27 de Julho de 2026 às 15:19

A Sociedade Internacional de Aids registrou 13 casos de remissão ou cura do HIV, incluindo dois novos pacientes que mantêm carga viral indetectável após transplantes de células-tronco. Os relatos foram apresentados na 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, no Rio de Janeiro

Sociedade Internacional de Aids eleva para 13 o número de casos de remissão do HIV
National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID)

A Sociedade Internacional de Aids (IAS) elevou para 13 o número de casos de remissão ou cura do HIV após o anúncio de dois novos pacientes que permanecem sem carga viral detectável mesmo após a interrupção do uso de antirretrovirais. Os relatos foram apresentados nesta segunda-feira (27), durante a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, realizada no Rio de Janeiro.

Um dos casos envolve um homem de 21 anos, residente de Kansas City, Missouri (EUA). Diagnosticado com HIV e leucemia agressiva em 2018, o paciente apresentava, inicialmente, mais de 2 milhões de cópias do vírus por mililitro de sangue e baixa imunidade. Em outubro de 2020, ele passou por um transplante de células-tronco de uma doadora compatível que possuía duas cópias da mutação CCR5-delta32 — alteração genética que bloqueia a principal porta de entrada do vírus nas células. Após complicações e um reforço de células-tronco, a medicação foi suspensa em fevereiro de 2025. Atualmente, 14 meses depois, exames não detectaram o vírus no sangue nem células capazes de reiniciar a infecção.

O segundo paciente, que também possuía histórico de hepatite B, recebeu células-tronco de um doador com a mesma mutação genética. O quadro era considerado complexo, pois o paciente lidava com diferentes cepas do HIV. A interrupção dos fármacos ocorreu pouco mais de quatro anos após o transplante e, após 12 meses, o vírus continuava indetectável, inclusive em amostras do intestino. Contudo, a suspensão dos antirretrovirais provocou a reativação da hepatite B em 25 dias, visto que parte da medicação anterior controlava ambos os vírus.

Critérios de remissão e monitoramento

Apesar dos resultados, os casos são classificados como possíveis curas devido ao curto período de tempo sem medicação. O infectologista Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), define a situação como "remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais", ressaltando que evidências mais robustas exigem ao menos dois anos de acompanhamento.

A dificuldade de confirmação total reside no fato de que não existe um exame capaz de varrer todo o organismo para garantir a ausência de células infectadas escondidas. O HIV insere seu material genético em células de defesa que podem permanecer adormecidas por anos, formando o chamado reservatório viral. Quando o tratamento é interrompido, essas células podem reiniciar a infecção, geralmente em poucas semanas.

O papel dos transplantes e a busca por terapias seguras

Todos os 13 casos de remissão contabilizados pela IAS ocorreram em pacientes que realizaram transplantes de células-tronco para tratar doenças graves do sangue, como linfomas e leucemias. O procedimento não foi planejado como tratamento para o HIV, mas substituiu as células de defesa dos pacientes por células do doador, muitas vezes resistentes ao vírus devido à mutação CCR5-delta32.

Entretanto, o transplante não é indicado como terapia padrão para o HIV devido aos riscos de rejeição, infecções graves e óbito. Para quem responde bem aos antirretrovirais, os riscos do procedimento superam os benefícios.

Atualmente, a ciência busca reproduzir os efeitos positivos desses transplantes por meio de métodos mais seguros, como:

  • Uso de anticorpos;
  • Medicamentos que estimulem a imunidade;
  • Terapias genéticas para tornar as células resistentes.

Embora Sharon Lewin, infectologista e ex-presidente da IAS, acredite na viabilidade de uma cura sem transplantes, ainda não há previsão de quando tais terapias estarão disponíveis em larga escala. Até que se desenvolva um método de baixo risco, o uso de antirretrovirais permanece como a única via comprovada para manter a carga viral indetectável e impedir a transmissão sexual.

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