Saúde

Sociedades de cardiologia atualizam a definição e a classificação global do infarto do miocárdio

29 de Agosto de 2026 às 06:00 4 min de leitura

Sociedades de cardiologia publicaram a 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, que substitui a divisão numérica por categorias baseadas no mecanismo da lesão: primário, secundário e relacionado a procedimento. O novo consenso estabelece limites de troponina específicos por sexo e permite o diagnóstico presumido em regiões com menor acesso tecnológico

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Sociedades de cardiologia atualizam a definição e a classificação global do infarto do miocárdio
Reprodução/TV TEM

As principais sociedades de cardiologia do mundo atualizaram a forma de definir e classificar o infarto do miocárdio. A 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, publicada nesta sexta-feira (28) no European Heart Journal, substitui a antiga divisão numérica (tipos 1 a 5) por um agrupamento baseado no mecanismo que causou a lesão no coração.

O novo consenso foi desenvolvido por especialistas de 12 países e cinco continentes, com a colaboração da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), do American College of Cardiology (ACC), da American Heart Association (AHA) e da World Heart Federation (WHF).

Nova classificação por origem da lesão

A estrutura anterior era considerada difícil de aplicar uniformemente e nem sempre revelava a causa do evento. Agora, os casos são divididos em três categorias principais:

  • Infarto primário: ocorre devido a uma alteração aguda na circulação das artérias coronárias. A causa mais frequente é a aterotrombose (quando uma placa de aterosclerose se rompe e forma um coágulo), mas o grupo agora inclui também a embolia, o vasoespasmo, a dissecção espontânea da artéria, a reestenose ou trombose de stent e falhas de enxerto após 30 dias da revascularização.
  • Infarto secundário: acontece quando outra condição clínica gera um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio no coração, sem a necessidade de uma obstrução aguda por coágulo. Exemplos incluem anemia grave, hipoxemia, hipertensão intensa, certas taquicardias ou quadros de choque séptico.
  • Relacionado a procedimento: engloba complicações de intervenções cardíacas, como cirurgias de revascularização ou procedimentos por cateter, que comprometam a circulação do órgão em um período de até 30 dias.

A categoria anteriormente denominada "tipo 3", que referia-se a mortes cardíacas sem a confirmação de exames, foi extinta. Esses casos agora serão enquadrados nos três grupos acima, dependendo do contexto clínico ou de achados em autópsias.

O papel da troponina e o diagnóstico diferencial

A troponina, proteína que escapa para o sangue quando há lesão nas células cardíacas, continua sendo o marcador central. A lesão miocárdica aguda é confirmada quando os níveis dessa proteína oscilam e ao menos um resultado supera o percentil 99 de referência.

No entanto, a elevação da troponina não confirma automaticamente um infarto, pois pode ocorrer em casos de miocardite, sepse, AVC, insuficiência cardíaca aguda, embolia pulmonar, crises epilépticas ou mesmo após exercícios físicos intensos. O diferencial para o diagnóstico de infarto é a presença de isquemia.

Para evitar o subdiagnóstico, especialmente em mulheres, a nova definição reforça a adoção de limites de troponina específicos para cada sexo, já que o ponto de corte para mulheres costuma ser mais baixo.

Exames de imagem e a condição MINOCA

O diagnóstico final não depende de um único critério, mas da combinação de sintomas, eletrocardiograma e exames de imagem. A angiografia coronariana invasiva permanece como referência, mas a ressonância magnética cardíaca, a tomografia das coronárias e o ecocardiograma ganham relevância para identificar o mecanismo da lesão.

O conceito de MINOCA (lesão miocárdica com artérias coronárias não obstrutivas) também foi revisado. Agora tratado como um diagnóstico de trabalho, ele indica que a investigação deve prosseguir para outros níveis, utilizando exames detalhados para diferenciar problemas coronarianos de outras doenças do músculo cardíaco.

Acesso global e padronização estatística

O documento aborda a desigualdade no acesso a diagnósticos. Em 2021, houve um aumento de 31,8% nos casos de doença isquêmica do coração em relação a 2010, mas muitos serviços de saúde ainda carecem de tecnologia. Em Uganda, por exemplo, apenas 43% dos serviços tinham dosagem de troponina e 55% possuíam eletrocardiograma.

Para essas regiões, a diretriz permite o diagnóstico presumido, baseado em sintomas de isquemia e alterações no eletrocardiograma (como novas mudanças isquêmicas ou ondas Q patológicas), permitindo que o paciente receba tratamento imediato. A telemedicina para leitura de exames e testes de troponina no ponto de atendimento também são incentivados.

Por fim, a nova classificação, construída com a Organização Mundial da Saúde, visa alinhar a prática clínica às estatísticas globais. Serão propostos novos códigos na CID-11 para diferenciar os infartos primários, secundários e relacionados a procedimentos, facilitando a precisão em estudos clínicos e bases de mortalidade.

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