Saúde

Terapia celular CAR-T reprograma células do sistema imunológico para tratar cânceres do sangue

19 de Setembro de 2026 às 06:00 4 min de leitura

A terapia celular CAR-T reprograma linfócitos T para tratar cânceres do sangue, como o mieloma múltiplo, com custos que podem chegar a R$ 4 milhões. No Brasil, a ausência do tratamento no rol da ANS leva a maioria dos pacientes a buscar a via judicial para obter a cobertura

-0:00
Terapia celular CAR-T reprograma células do sistema imunológico para tratar cânceres do sangue
Arquivo Pessoal

A terapia celular CAR-T, considerada uma das abordagens mais avançadas para o tratamento de cânceres do sangue, tem provocado discussões sobre a possibilidade de cura funcional em doenças anteriormente vistas como incuráveis. O caso de Celina Schinen exemplifica a jornada de pacientes com mieloma múltiplo, um câncer originado na medula óssea, que recorrem a essa tecnologia após a falha de tratamentos convencionais.

Diagnosticada em outubro de 2024 após apresentar cansaço excessivo e sangramentos nasais, Celina passou por quimioterapia e transplante de medula óssea. Com a recidiva da doença cerca de um ano depois, a paciente foi indicada para a terapia CAR-T, que se mostra especialmente eficaz em cenários de segunda linha de tratamento, ou seja, para quem já passou por outras terapias anteriores.

O funcionamento da reprogramação genética

A técnica de terapia celular consiste em transformar as defesas do próprio organismo em um medicamento personalizado. O processo foca nos linfócitos T, células do sistema imunológico responsáveis por destruir agentes infecciosos e células cancerígenas.

O procedimento segue etapas rigorosas de bioengenharia:

  1. Coleta: O sangue do paciente é extraído via punção periférica e passa por uma centrifugação para a separação dos linfócitos T.
  2. Manufatura: O material é enviado a centros especializados nos Estados Unidos ou Europa. Lá, um vírus geneticamente modificado reprograma o DNA da célula para que ela reconheça proteínas específicas do tumor, como a BCMA (no caso do mieloma múltiplo) ou a CD-19 (em leucemias e linfomas).
  3. Expansão e Retorno: As células reprogramadas são multiplicadas, congeladas e devolvidas ao centro médico onde está o paciente.
  4. Infusão: Após um ciclo de quimioterapia para abrir espaço no organismo, as células CAR-T são infundidas na corrente sanguínea para localizar e destruir o tumor.

O tratamento exige vigilância rigorosa, com internação de duas semanas após a infusão, devido a possíveis reações como a síndrome de liberação de citocinas (inflamação sistêmica) e impactos neurológicos, que podem variar de desorientação a convulsões.

Barreiras financeiras e judiciais no Brasil

Apesar da eficácia, o acesso à terapia no Brasil é dificultado por entraves regulatórios e pelo alto custo. O valor de uma aplicação de CAR-T gira em torno de R$ 3 milhões apenas pelo produto, podendo chegar a R$ 4 milhões ao incluir a internação e o manejo clínico.

O principal conflito reside na ausência da terapia no rol de coberturas obrigatórias da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Enquanto a indústria farmacêutica argumenta que, por ser uma droga antineoplásica de uso intra-hospitalar aprovada pela Anvisa, a cobertura deveria ser automática, a ANS defende a necessidade de análise técnica e participação social para a incorporação de terapias avançadas.

Atualmente, a maioria dos pacientes consegue o tratamento via judicial. A Lei 14.454/2022 e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) permitem que planos de saúde custeiem terapias fora do rol, desde que haja prescrição médica, registro na Anvisa, evidências científicas de segurança e ausência de alternativas cobertas.

Essa dependência do Judiciário prolonga o tempo de espera. Um processo que levaria de 30 a 40 dias para a entrega das células pode se estender por 180 dias ou mais, o que representa um risco crítico para pacientes com doenças de progressão rápida.

Perspectivas e novas fronteiras

A ciência agora busca expandir a aplicação da terapia para tumores sólidos. O desafio é maior do que nos cânceres do sangue, pois esses tumores possuem uma "carapaça" protetora e um microambiente hostil (ácido e com pouco oxigênio) que dificulta a ação das células T.

Paralelamente, a tecnologia tem demonstrado resultados promissores em doenças autoimunes graves, como lúpus e esclerose sistêmica. Ao eliminar as células B defeituosas, a terapia CAR-T tem conseguido manter pacientes sem a necessidade de medicação por anos, com a expectativa de aprovações oficiais nos Estados Unidos para os próximos anos.

Notícias Relacionadas