UNAIDS alerta que cortes de verbas e barreiras de acesso podem provocar ressurgimento do HIV
O UNAIDS alertou sobre o risco de ressurgimento do HIV devido a cortes em financiamentos e barreiras no acesso à prevenção. Em 2025, foram registrados 1,2 milhão de novos casos e 570 mil mortes globais, ameaçando a meta de eliminação da doença até 2030
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/5/q/ZSzKUySuuwJbwhl5qczQ/adobestock-425208305.jpeg)
O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) alertou, durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS, realizada no Rio de Janeiro, que o mundo enfrenta o risco de um ressurgimento da epidemia de HIV. De acordo com o relatório "Unidas e Unidos para acabar com a AIDS", a combinação de cortes em financiamentos internacionais, redução de serviços comunitários e barreiras no acesso à prevenção pode anular décadas de progressos científicos e sociais.
Embora as taxas de mortalidade e de novas infecções estejam nos níveis mais baixos dos últimos 30 anos, a meta de eliminar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 está sob ameaça. Em 2025, foram contabilizadas 570 mil mortes relacionadas à doença e 1,2 milhão de novos casos de infecção globalmente.
Desigualdades no controle da epidemia
Os dados revelam disparidades profundas entre as nações. Enquanto 11 países atingiram as metas internacionais de tratamento (95-95-95) e outros sete reduziram as novas infecções em quase 80% desde 2010, diversas regiões registraram retrocessos em 2025.
Nesse período, 21 países tiveram aumento nos casos e três regiões do mundo viram as novas infecções crescerem. O cenário é crítico para as populações vulneráveis: cerca de 22% das 41 milhões de pessoas que vivem com o vírus não tinham tratamento e quase metade das crianças infectadas não acessou a terapia antirretroviral.
Avanços tecnológicos e barreiras de acesso
O cenário científico é considerado histórico, com o desenvolvimento de novas tecnologias de prevenção que oferecem proteção similar à de uma vacina. Entre as inovações estão:
- Medicamentos injetáveis com aplicação mensal ou semestral;
- Comprimidos de uso mensal (ainda em fase avançada de testes).
A diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, ressalta que a inovação perde o sentido se não houver preços acessíveis e distribuição ampla, transformando a ciência em injustiça social.
No Brasil, houve um avanço de 41% no número de pessoas que utilizaram a prevenção medicamentosa ao menos uma vez no último ano. Contudo, o país enfrenta dificuldades com a fabricante Gilead para obter licença voluntária do medicamento lenacapavir, o que impediria a produção de genéricos ou a redução de preços. Por isso, o governo brasileiro avalia a possibilidade de aplicar o licenciamento compulsório.
Para reduzir significativamente as infecções, a agência estima que 20 milhões de pessoas precisem de prevenção baseada em antirretrovirais. Atualmente, a iniciativa da UNITAID e do Fundo Global visa levar o lenacapavir a 3 milhões de pessoas até 2028, volume considerado insuficiente diante da demanda global.
Colapso do financiamento e serviços comunitários
A assistência oficial ao desenvolvimento sofreu a maior queda já registrada em 2025, com redução de 23%. Especificamente para o combate ao HIV, os recursos internacionais caíram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, o menor patamar em quase duas décadas.
Essa crise financeira impacta severamente países africanos de baixa renda, que dependiam de verbas externas para mais de 90% de suas ações. Na África Subsaariana, 80% dos recursos de prevenção vinham de fontes internacionais.
O corte atingiu drasticamente os programas comunitários. Um estudo de 2026 em 47 países apontou reduções severas em serviços essenciais:
- 85% de queda no apoio a homens gays e outros homens que fazem sexo com homens;
- 82% de redução em serviços para profissionais do sexo;
- 72% de cortes para sobreviventes de violência de gênero;
- 50% de redução no suporte ao cuidado do HIV e prevenção medicamentosa.
Em algumas localidades, o financiamento para a distribuição de preservativos caiu mais de 90%.
Criminalização e Direitos Humanos
O relatório aponta um crescimento inédito na criminalização de grupos vulneráveis, o que afasta as pessoas dos serviços de saúde por medo de violência ou prisão. Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo, e o Senegal endureceu as penas para tais atos em 2026.
Atualmente, o cenário global de punição inclui:
- 168 países criminalizam o trabalho sexual;
- 152 países punem a posse de pequenas quantidades de drogas;
- 66 países criminalizam relações homoafetivas consensuais;
- 14 países criminalizam pessoas trans.
Metas para 2030
Apesar dos obstáculos, 149 Estados-Membros adotaram, em junho de 2026, a nova Declaração Política sobre HIV e AIDS. O plano para 2030 estabelece as seguintes metas:
- Alcançar 40 milhões de pessoas em tratamento;
- Prover prevenção antirretroviral para 20 milhões de pessoas;
- Reduzir para menos de 10% a incidência de estigma, discriminação, desigualdade de gênero e violência contra pessoas em risco ou vivendo com o vírus;
- Limitar a menos de 10% o número de países com leis punitivas que restrinjam o acesso à saúde.
Se cumpridas, essas medidas podem evitar 1,3 milhão de mortes e 3,2 milhões de novas infecções até o final da década.