Vacina da Pfizer não causa contaminação por hantavírus, afirma especialista da USP
Publicações em redes sociais propagam a informação falsa de que a vacina da Pfizer contra a Covid-19 causa hantavírus. A afirmação baseia-se em um documento de 2021 enviado à FDA, mas não há evidências de relação causal ou aumento de casos da doença
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Publicações que circulam nas redes sociais, especialmente na plataforma X desde o início de maio, afirmam erroneamente que a vacina da Pfizer contra a Covid-19 causaria a contaminação por hantavírus. A desinformação utiliza como base um documento de 38 páginas enviado pela fabricante à Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos Estados Unidos, em 2021.
A menção à "infecção pulmonar por hantavírus" no referido documento ocorre porque a Pfizer é obrigada a registrar todos os eventos de saúde manifestados após a aplicação do imunizante, independentemente de haver ou não relação causal com a vacina. De acordo com Luís Carlos de Souza Ferreira, professor do Departamento de Microbiologia da Universidade de São Paulo (USP), essa listagem de eventos adversos é um requisito obrigatório na fase 4 do estudo clínico de qualquer medicamento ou vacina para a obtenção de aprovação.
Não houve registro de aumento nos casos de hantavirose nem evidências de que o imunizante provoque a doença. Caso fosse comprovada a relação de causa e efeito entre a vacina e a infecção, a aplicação do produto teria sido suspensa, a exemplo do que ocorreu com a vacina da AstraZeneca devido ao risco de trombose. Vale ressaltar que o hantavírus não consta na bula do medicamento.
A propagação dessas mensagens coincidiu com um surto da variante Andes do hantavírus, que resultou na morte de três pessoas a bordo do navio-cruzeiro MV Hondius. A embarcação partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril, e chegou ao porto de Rotterdam, na Holanda, em 18 de maio para a realização de desinfecção. Embora o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, tenha descartado a possibilidade de uma disseminação ampla da doença em 12 de maio, a situação permanece sob monitoramento devido ao longo período de incubação do vírus.
O hantavírus é transmitido pelo contato com fezes, urina e saliva de roedores. Os sintomas iniciais incluem febre, fadiga, dores musculares e abdominais, podendo evoluir para quadros graves de comprometimento cardiovascular e pulmonar, como a síndrome da angústia respiratória (SARA).
Quanto aos efeitos adversos reais da vacina da Pfizer, a bula indica reações muito comuns (10% dos pacientes), como febre, calafrios, cansaço, dor de cabeça, diarreia, dores musculares e articulares, além de inchaço e dor no local da aplicação. Reações comuns (entre 1% e 10%) incluem náusea, vômito, vermelhidão no local da injeção e aumento de gânglios linfáticos. Eventos incomuns (0,1% a 1%) abrangem insônia, tontura, suor excessivo, letargia, diminuição do apetite, mal-estar, fraqueza e reações de hipersensibilidade, como urticária e prurido. A paralisia facial aguda é classificada como uma reação rara, ocorrendo em até 0,1% dos casos.