Brasil assina a criação de organização chinesa para governança global de inteligência artificial
Brasil e outras 28 nações fundaram a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), com sede em Xangai. A iniciativa propõe uma governança global baseada em código aberto para a tecnologia

O Brasil integrou o grupo de 29 nações que assinaram a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico). Com sede em Xangai, na China, a iniciativa visa estabelecer uma governança global de IA fundamentada em modelos de código aberto, permitindo que a tecnologia seja apropriada por diversas organizações e empresas.
A estratégia chinesa surge como um contraponto ao projeto dos Estados Unidos, denominado Pax Silica. Enquanto a Waico propõe a cooperação aberta, a Casa Branca busca reunir aliados para controlar a infraestrutura essencial da tecnologia, incluindo a energia, os dados e as cadeias de suprimento de minerais críticos e semicondutores.
Soberania digital e infraestrutura
O governo brasileiro defende a busca por uma soberania digital, argumentando que o país não deve se tornar dependente de modelos exclusivos, sejam eles ocidentais ou chineses. Essa visão converge com a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em fóruns multilaterais, onde sustenta que a IA deve ser regida por uma governança intergovernamental, evitando que a tecnologia se torne um instrumento de manipulação de bilionários ou privilégio de poucas nações.
Para que essa cooperação com a China resulte em absorção real de conhecimento, especialistas apontam a necessidade de o Brasil desenvolver sua própria infraestrutura crítica. Sérgio Amadeu, professor da UFABC, ressalta que a ausência de capacidade nacional de processamento e armazenamento de dados gera dependência financeira de big techs estrangeiras, como a Huawei ou Amazon. Segundo Amadeu, a existência de centros de pesquisa universitários coloca o país em posição privilegiada para criar uma estratégia autônoma de desenvolvimento.
Geopolítica e riscos globais
A capacidade de transitar entre as iniciativas da China e dos EUA posiciona o Brasil como um ator estratégico na geopolítica da IA. Ettore Arpini, fundador da Plures, argumenta que a tecnologia deve ser encarada não apenas como uma questão setorial ou regulatória, mas como uma alavanca de prosperidade econômica e vantagem geopolítica.
Essa percepção de impacto global é compartilhada por António Guterres, secretário-geral da ONU. Durante o lançamento da Waico, Guterres classificou a IA como a maior oportunidade do século XXI, mas alertou que a tecnologia também representa um risco significativo se for governada por um grupo reduzido de empresas ou países.
O conflito de visões: ONU vs. Estados Unidos
A divergência entre os modelos de governança é explícita na crítica dos Estados Unidos ao conceito de soberania digital. Jacob Helberg, subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos Econômicos, defende que países que tentam desenvolver seus próprios computadores e modelos internos acabam por perseguir uma "mediocridade sincronizada".
Para a visão de Washington, a eficiência estaria em utilizar as infraestruturas já consolidadas pelas gigantes da tecnologia americanas, sob o argumento de que a tentativa de reconstruir inovações passadas impediria que outras nações acompanhassem a velocidade das invenções futuras lideradas pelos EUA.