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Canais do YouTube usam avatares de inteligência artificial para se passarem por médicos e enganar idosos

01 de Julho de 2026 às 09:07

Canais do YouTube utilizam avatares de inteligência artificial para simular médicos e vender produtos a idosos. Um levantamento da organização CTRL+Z identificou 29 canais em português com esse perfil, somando 70 milhões de visualizações. O Google removeu perfis que totalizavam 41 milhões de acessos após a detecção de desinformação médica

Canais do YouTube usam avatares de inteligência artificial para se passarem por médicos e enganar idosos
Getty Images/BBC

Uma rede organizada de canais no YouTube está utilizando avatares criados por inteligência artificial para se passarem por médicos e disseminar orientações de saúde voltadas ao público idoso. A estratégia, que opera em escala industrial, visa monetizar a confiança de pessoas da terceira idade por meio de visualizações, venda de e-books e produtos, frequentemente utilizando roteiros que exploram o medo e a urgência para reter a audiência.

A operação funciona através de "canais dark", onde a identidade do criador é omitida. Rostos e vozes sintéticas, trajando jalecos brancos e adotando tons calmos, apresentam-se como especialistas com anos de experiência. O conteúdo é produzido massivamente, com a tradução e adaptação de roteiros estrangeiros via ChatGPT, resultando em vídeos que misturam informações reais com pseudociência. Um levantamento da organização CTRL+Z mapeou 29 canais em português com esse perfil, acumulando ao menos 70 milhões de visualizações, com uma média de 10 publicações diárias.

O impacto prático dessa prática reflete-se em mudanças perigosas de comportamento. Relatos de usuários indicam a interrupção de medicamentos prescritos e a substituição de tratamentos médicos por terapias caseiras. Casos documentados incluem idosos que trocaram o uso de omeprazol por batata-doce ou substituíram remédios ginecológicos por óleo de abóbora. Outros usuários relataram ter abandonado consultas médicas regulares após seguirem conselhos de avatares sobre doenças como Alzheimer.

Do ponto de vista jurídico e ético, a simulação de profissionais de saúde pode configurar crimes de falsa identidade e exercício ilegal da medicina. Especialistas alertam que a generalização de orientações médicas via internet é arriscada, pois ignora comorbidades e interações medicamentosas individuais, podendo atrasar diagnósticos graves ou agravar quadros clínicos.

A lucratividade do nicho "saúde sênior" é impulsionada por tutoriais que ensinam criadores a explorar a vulnerabilidade e a disponibilidade de tempo e renda dos idosos. Alguns instrutores chegam a prometer ganhos mensais de R$ 30 mil, incentivando a cópia de conteúdos estrangeiros e a criação de personas fictícias para enganar o espectador.

Em resposta, o Google afirmou que o YouTube proíbe desinformação médica que cause danos graves e que implementou rótulos para identificar conteúdos gerados por IA. Após a identificação de canais específicos, a plataforma removeu perfis que somavam cerca de 41 milhões de visualizações. No entanto, organizações de monitoramento argumentam que a remoção pontual não resolve a questão, defendendo a responsabilização legal das plataformas que lucram com o impulsionamento desses conteúdos nocivos.

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