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Coreia do Sul registra o maior consumo de conteúdo sintético do mundo em 2025

19 de Maio de 2026 às 18:05

A Coreia do Sul registra o maior consumo mundial de conteúdo sintético, com 44,5% da população utilizando IA generativa em 2025. O fenômeno resultou em fraudes digitais, crimes de segurança pública, pornografia sintética, manipulações políticas e a extinção de 98% de 211 mil empregos juvenis entre 2022 e 2025

Coreia do Sul registra o maior consumo de conteúdo sintético do mundo em 2025
SCMP

A Coreia do Sul tornou-se o epicentro de um fenômeno global de desinformação impulsionado pela inteligência artificial (IA) generativa. Com 44,5% da população utilizando essas ferramentas, segundo dados governamentais de 2025, o país registra o maior consumo de conteúdo sintético do mundo, conforme aponta a plataforma Kapwing. O impacto reflete-se em casos que variam de fraudes digitais inofensivas a crimes graves e crises institucionais.

Um exemplo recente de manipulação viral envolveu a criação de uma figura feminina em arquibancadas de beisebol que, apesar de somar 15 milhões de visualizações, era inteiramente artificial. A fraude foi detectada por entusiastas do esporte que notaram a impossibilidade do jogo exibido: um arremessador ativo do Hanwha Eagles enfrentando um batedor já aposentado do Doosan Bears. A tendência se expandiu para a criação de espectadores falsos em eventos de alta visibilidade, como boxes da Fórmula 1 e pavilhões da NBA, frequentemente associados a celebridades como o cantor Jungkook, do BTS.

A aplicação da IA generativa também atingiu a segurança pública. Em abril, na cidade de Daejeon, um homem de 40 anos utilizou um gerador de imagens para simular a presença de um lobo marrom em uma rua próxima a uma escola. A imagem foi replicada em alertas oficiais e coletivas de imprensa, levando as autoridades a orientarem a população a permanecer em casa. O autor foi preso por obstrução à justiça após a falsificação ser descoberta.

No âmbito social e político, a tecnologia tem sido usada para a criação de pornografia sintética, vitimando milhares de mulheres e menores — incluindo estudantes de ensino médio cujas fotos foram manipuladas por colegas — com distribuição via Telegram. Na política, vídeos de K-pop gerados por IA foram empregados para exaltar candidatos ou atacar adversários, além da criação de notícias falsas que inseriam políticos em listas de prestígio da revista Time, forçando a mobilização de centenas de policiais para monitorar conteúdos antes de eleições locais.

Kim Myuhng-joo, diretor executivo do Instituto Coreano de Segurança em Inteligência Artificial, associa esse comportamento à obsessão coreana pela imagem física, descrevendo a IA como uma ferramenta de satisfação vicária. O especialista alerta que a imersão excessiva nessas fantasias pode aprofundar a insatisfação vital e o escapismo.

O impacto econômico é severo. Dados do Banco de Coreia, via agência AJP, indicam que 98% dos 211 mil empregos juvenis extintos entre julho de 2022 e julho de 2025 estavam em setores altamente expostos à automação por IA. Em fevereiro deste ano, o setor de serviços profissionais, científicos e técnicos registrou a maior queda de postos de trabalho desde 2013, com a perda de 105 mil vagas.

A educação também enfrenta crises. Alunos da Universidade Nacional de Seul foram punidos após usarem IA em exames finais, enquanto as universidades Yonsei e de Coreia implementaram restrições contra fraudes acadêmicas. No ensino básico, livros didáticos gerados por IA foram implantados pelo governo, mas professores denunciaram erros factuais sistemáticos, exigindo a revisão manual de cada tablet. Jeon Chang-bae, da Associação Internacional para a IA e a Ética, observa que as diretrizes éticas publicadas pela Coreia do Sul desde 2020 não surtiram efeito, defendendo que a sociedade trate a IA não como uma tecnologia comum, mas como algo com consequências humanas profundas.

Fora da Ásia, a desinformação sintética moldou cenários eleitorais. Nas eleições para o Parlamento Europeu de 2024, partidos de extrema direita na França, Itália e Bélgica utilizaram 131 peças de conteúdo manipulado no Instagram, Facebook, X, Telegram e VKontakte, ignorando códigos de conduta assinados. Na Hungria, mais de 1,5 milhão de euros foram investidos em vídeos de IA que atacavam o opositor Peter Magyar com cenas falsas de soldados morrendo na Ucrânia. A Romênia chegou a anular suas eleições presidenciais de 2024 devido a interferências de IA ligadas a atores russos. Saman Nazari, da Alliance4Europe, destaca que a IA automatizou a produção e a distribuição de conteúdo, permitindo a reescrita rápida de textos para públicos específicos.

Nos Estados Unidos, a preparação para as eleições de meio de mandato de 2026 é marcada por centenas de contas falsas no TikTok. O ex-presidente Donald Trump chegou a compartilhar conteúdo de um avatar sintético que atacava o governador da Califórnia. Uma pesquisa da PBS News/NPR/Marist revela que 85% dos americanos acreditam que a IA espalhará desinformação no pleito. Complementando esse cenário, um estudo da Nature publicado em 2026 mostrou que a maioria das pessoas é influenciada por vídeos falsos, mesmo quando avisadas previamente da manipulação.

O Fórum Econômico Mundial (WEF) classificou a desordem informativa de 2026 como um risco sistêmico capaz de desestabilizar democracias e erodir a coesão social. Sakshee Singh e Alan Jagolinzer, do WEF, afirmam que a mera existência de "ultrafalsificações" gera uma dúvida generalizada sobre a verdade.

Como resposta, líderes e pesquisadores buscam soluções. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, utilizou a própria imagem em uma "ultrafalsificação" (combinando traços reais com corpo sintético) para alertar sobre a vulnerabilidade de cidadãos a ataques de imagem. A Dinamarca tornou-se o único país a garantir legalmente a propriedade do rosto e da voz dos cidadãos. No campo técnico, pesquisadores do ETH Zurich propuseram, em março de 2026, um sistema de selagem criptográfica no sensor da câmera para autenticar imagens e áudios no momento da captura.

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