Soberania digital torna-se prioridade estratégica para organizações na integração da inteligência artificial
Organizações priorizam a soberania digital para integrar a inteligência artificial sem depender de poucos fornecedores. A estratégia envolve a adoção de arquiteturas multimodelo, governança de dados e a preservação da capacidade cognitiva humana
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A inteligência artificial (IA), termo cunhado por John McCarthy em 1956, deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade para se tornar um imperativo estratégico. O cenário atual revela que a prioridade das organizações mudou: se antes o foco era a implementação da tecnologia, agora o desafio central é a soberania digital, ou seja, a capacidade de integrar a IA sem perder o controle sobre dados, decisões e a competitividade.
A soberania da IA não deve ser confundida com autarquia ou autossuficiência tecnológica. Conforme analisado por Carme Artigas, pesquisadora do Harvard Belfer Center, a verdadeira soberania reside na liberdade de escolha e na existência de múltiplas opções, evitando a dependência exclusiva de poucos fornecedores globais. O objetivo não é possuir o modelo mais avançado, mas garantir que as decisões tecnológicas de hoje não limitem a adaptação da empresa no futuro.
Para as organizações, isso implica uma mudança de abordagem. José María Lucía, sócio da EY wavespace, defende que a IA não deve ser tratada como projetos isolados, mas como uma estratégia de criação de valor. O foco deve migrar da ferramenta para a arquitetura, projetando sistemas capazes de absorver novas soluções e fornecedores sem interromper a continuidade do negócio.
Nesse sentido, a resiliência tecnológica torna-se um diferencial competitivo. Rodrigo Hernández, da Multiverse Computing, propõe a implementação de soluções em múltiplos fornecedores. Estratégias multimodelo e multicloud, que combinam sistemas proprietários e abertos, surgem como mecanismos de proteção contra o bloqueio por fornecedores e a volatilidade do mercado.
No contexto geopolítico, a Europa enfrenta o desafio de competir com Estados Unidos e China. A estratégia do continente deve focar na criação de um ecossistema próprio, baseado em infraestruturas críticas, talento científico e um marco regulatório que gere confiança sem travar a inovação, apostando em um mercado único para escalar soluções.
Além da infraestrutura, a vantagem competitiva agora se desloca para a governança organizacional. O risco atual é a diluição do conhecimento estratégico da empresa em plataformas de terceiros. Portanto, é essencial estabelecer modelos de governança que protejam o patrimônio intelectual e definam políticas internas de supervisão, indo além do simples cumprimento das leis.
Por fim, a discussão sobre soberania expande-se para a dimensão humana. Rodrigo Miranda, da ISDI Digital Talent, introduz o conceito de "soberania cognitiva", alertando para a responsabilidade das empresas em garantir que a IA complemente o trabalho humano sem erodir a capacidade de análise e tomada de decisão dos profissionais. O investimento em formação e cultura de aprendizado contínuo é o que permitirá que a IA eleve a empregabilidade e a produtividade, mantendo as pessoas como as definidoras dos objetivos e riscos estratégicos da organização.