Tecnologia europeia propõe o uso de lasers para alimentar veículos em regiões escuras da Lua
O projeto europeu PHILIP propõe o uso de lasers infravermelhos de 500 watts para alimentar rovers em áreas escuras da Lua. A tecnologia visa viabilizar a exploração de depósitos de gelo hídrico sem a necessidade de geradores nucleares. O sistema, financiado pela ESA, prevê a transmissão de energia a distâncias de até 15 km
Um novo conceito tecnológico europeu propõe a utilização de lasers para alimentar veículos exploradores em regiões da Lua que permanecem em escuridão permanente. O sistema, batizado de PHILIP (alimentação de veículos exploradores por indução a laser de alta intensidade em planetas), visa viabilizar a movimentação contínua de rovers em áreas onde a luz solar não chega, eliminando a dependência exclusiva de baterias internas ou reservas volumosas de energia a bordo.
O foco da iniciativa são as zonas sombreadas que apresentam indícios de gelo de água, recurso estratégico para a produção de oxigênio, combustível e água potável em futuras missões humanas e robóticas. A presença desse gelo é sustentada por detecções de hidrogênio e dados do Lunar Reconnaissance Orbiter da NASA, com suporte das missões SMART-1 e Chandrayaan-1, sugerindo que tais depósitos podem estar estáveis há bilhões de anos.
Para evitar a complexidade técnica, os custos e os desafios de gerenciamento térmico dos geradores nucleares termoelétricos — solução tradicional para esses ambientes —, o projeto PHILIP transfere a fonte de energia para fora do veículo. Segundo o engenheiro de robótica da ESA, Michel Van Winnendael, o uso de energia nuclear elevaria as exigências da missão e o calor emitido pelo rover poderia comprometer a integridade do gelo estudado. O laser resolve esse impasse ao transmitir energia à distância, minimizando o impacto térmico no ambiente preservado.
A operação prevê a instalação de um módulo de pouso em uma área de iluminação quase constante, situada entre as crateras Shackleton e Gerlache. Desse ponto, um laser infravermelho de 500 watts seria disparado para alimentar um rover de 250 kg enquanto ele avança para as sombras, alcançando distâncias de até 15 km. O veículo converteria o feixe em eletricidade através de painéis solares modificados, com sensores garantindo o alinhamento do laser com precisão de um centímetro. Para manter a linha de visão direta, o trajeto do rover seria planejado com inclinações de aproximadamente 10 graus.
Além da energia, o sistema integraria a comunicação: um retrorrefletor no rover enviaria sinais modulados de volta ao módulo de pouso via luz refletida. O desenvolvimento do projeto é fruto de uma parceria entre a Leonardo e o Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento em Optoeletrônica da Romênia, com financiamento da ESA.
A tecnologia baseia-se em experiências terrestres com drones mantidos em voo por lasers, adaptadas agora para as condições severas da Lua. Testes de campo já foram realizados em Tenerife, simulando a baixa visibilidade lunar para validar a navegação. Com a conclusão da fase de estudos, o projeto PHILIP caminha para a etapa de protótipos e novos ensaios dentro dos programas tecnológicos da ESA, visando abrir o acesso a crateras escuras e preservar o estado natural dos recursos hídricos lunares.