Governo brasileiro firma parceria com empresa chinesa para processar dados de milhões de cidadãos
Através do Serpro, o governo brasileiro e a chinesa iFlytek acordaram a aplicação de inteligência artificial em dados da administração pública. O projeto abrange seis eixos técnicos e processará informações de 220 milhões de cidadãos para aumentar a independência tecnológica do país
O governo brasileiro estabeleceu uma parceria com a empresa chinesa iFlytek para integrar inteligência artificial ao processamento de dados da administração pública. A iniciativa visa desenvolver capacidades tecnológicas nacionais para evitar a dependência de fornecedores externos, especialmente diante das restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de chips e ferramentas de IA.
O Serpro, que detém um portfólio de mais de 300 soluções de IA, será o responsável por incorporar a tecnologia chinesa aos sistemas governamentais. Na prática, a ferramenta poderá processar informações de 220 milhões de brasileiros, abrangendo registros do SUS, do INSS, declarações de imposto de renda, dados de identificação civil e documentos de comércio exterior.
A estratégia foca no domínio completo do ciclo de desenvolvimento, desde a curadoria de dados até a operação em produção, evitando a simples utilização de modelos prontos. Carlos Rodrigo Lima, do Centro de Excelência em Ciência de Dados e IA do Serpro, afirma que essa abordagem coloca a tecnologia a serviço do Estado. O presidente do Serpro, Wilton Mota, define a empresa como a ponte entre a pesquisa, a política pública e a entrega ao cidadão, enquanto o embaixador Eugênio Vargas Garcia, do Itamaraty, ressalta a necessidade de o Brasil desenvolver competências em toda a cadeia de IA.
O protocolo de cooperação está estruturado em seis eixos: infraestrutura de nuvem segura e data centers, cibersegurança, pesquisa conjunta, criação de modelos de linguagem adaptados ao português brasileiro, capacitação de pesquisadores e intercâmbio técnico por meio de bolsas de estudo. O objetivo é formar especialistas brasileiros capazes de operar e evoluir os sistemas sem dependência permanente do parceiro chinês.
A escolha da iFlytek, especializada em reconhecimento de voz, tradução automática e processamento de linguagem natural, ocorre em um cenário de tensões diplomáticas entre Washington e Pequim. A empresa já foi alvo de sanções americanas devido a supostas ligações com o aparato de vigilância do governo chinês. A articulação do acordo contou com a participação da Casa Civil e acompanhamento do Ministério das Relações Exteriores, com a justificativa do ministro interino do MCTI, Luis Fernandes, de que a falta de capacidade própria gera vulnerabilidade tecnológica.
Embora o acordo mencione a soberania digital e o controle público das tecnologias, os instrumentos de governança para garantir a privacidade dos dados ainda dependem de formalização. O governo argumenta que a transferência de conhecimento e o domínio do ciclo de desenvolvimento são as garantias contra a dependência externa. No entanto, a execução prática dessas medidas dependerá de contratos específicos, cujos detalhes ainda não foram divulgados.