Estudo detecta até 7 gramas de partículas plásticas em tecidos cerebrais humanos
Pesquisadores da Universidade do Novo México detectaram micro e nanoplásticos em tecidos cerebrais humanos, conforme estudo de fevereiro de 2025 na Nature Medicine. A carga de polietileno no cérebro superou a de rins e fígado, crescendo 50% entre 2016 e 2024. Alguns indivíduos apresentaram acúmulo de 7 gramas do material
Pesquisadores da Universidade do Novo México publicaram, em fevereiro de 2025, na revista Nature Medicine, um estudo que identifica a concentração de micro e nanoplásticos em tecidos cerebrais humanos. A análise, realizada por meio de autópsias, revelou que o cérebro apresenta níveis dessas partículas significativamente superiores aos encontrados nos rins e no fígado.
O trabalho comparou amostras coletadas em 2016 e 2024, evidenciando um crescimento de aproximadamente 50% na carga de contaminantes em menos de uma década. Em alguns indivíduos, a quantidade total de plástico acumulada no cérebro chega a cerca de 7 gramas, peso equivalente ao de uma colher de plástico. Embora essa medida represente a massa total, o material não forma uma estrutura sólida, estando distribuído em escala microscópica e nanométrica.
A análise química identificou o polietileno (PE) como o principal componente dessas partículas, material amplamente utilizado na fabricação de garrafas, sacolas e embalagens. Os fragmentos apresentam formatos irregulares, semelhantes a estilhaços envelhecidos, resultantes da degradação de plásticos maiores. A entrada dessas substâncias no organismo ocorre por meio da inalação de partículas suspensas no ar ou pela ingestão de água e alimentos contaminados.
A presença desses materiais no cérebro levanta questionamentos sobre a superação da barreira hematoencefálica, responsável por proteger o órgão contra agentes nocivos. A hipótese levantada é que o tamanho nanométrico das partículas permita essa travessia. Além disso, a afinidade de plásticos hidrofóbicos, como o polietileno, com a bainha de mielina — estrutura rica em lipídios que envolve os neurônios para a transmissão de sinais elétricos — pode favorecer o acúmulo nessas regiões. Apesar disso, os achados são associativos e não há comprovação de que esse processo cause danos neurológicos diretos em humanos.
A exposição é sistêmica, com a detecção de partículas plásticas também no sangue, coração, pulmões e placenta. Esse cenário reflete a expansão da produção global de plástico, que cresce exponencialmente desde a década de 1950 e hoje ultrapassa centenas de milhões de toneladas por ano.
O estudo alerta que o fluxo de microplásticos para o corpo humano deve persistir por décadas, independentemente de eventuais mudanças nas políticas de produção. Isso ocorre porque a enorme quantidade de material já disperso no ambiente continua em processo de fragmentação, mantendo o ciclo de exposição através da cadeia alimentar, da água e do ar.