Ciência

Hormônio liberado após o consumo de açúcar favorece a retenção de memórias em moscas-da-fruta

16 de Abril de 2026 às 19:14

Pesquisa na revista Nature vinculou a fixação da memória de longo prazo em moscas-da-fruta à liberação de thyrostimulin após a ingestão de açúcar. O processo ocorre por meio da reprogramação de neurônios sensores de frutose via aprendizado aversivo espaçado. A glicose pode promover ganhos na atenção e na memória episódica humana

Um estudo publicado na revista Nature revelou que a consolidação da memória de longo prazo em moscas-da-fruta (*Drosophila melanogaster*) está vinculada a um mecanismo específico de sinalização energética. A pesquisa observou que sessões de aprendizado aversivo espaçadas — método conhecido por favorecer a retenção de informações — reprogramam temporariamente os neurônios sensores de frutose no cérebro desses animais.

O processo induz esses neurônios a um estado funcional semelhante ao jejum, mesmo que os insetos já estejam saciados. Quando o açúcar é ingerido logo após o esforço cognitivo, ocorre a ativação dessas células e a consequente liberação de thyrostimulin, um hormônio glicoproteico que atua como o sinal decisivo para a fixação da memória. Esse fenômeno é acompanhado por uma alteração comportamental: as moscas passam a preferir e consumir mais sacarose, evidenciando uma fome não homeostática, impulsionada pela necessidade do cérebro de sustentar a memorização e não por uma carência real de energia no organismo.

Essa descoberta se soma a outras investigações sobre a gestão de combustível cerebral. Em 2017, foi demonstrado que as moscas distinguem o sabor doce do valor calórico real, desenvolvendo a chamada "memória de frustração calórica" ao consumirem adoçantes artificiais. Mais recentemente, em 29 de novembro de 2024, outro estudo indicou que um hormônio similar ao CRH em drosófilas desvia a energia das células da glia para abastecer os neurônios envolvidos na formação de memórias.

Em seres humanos, a aplicação desses achados é mais restrita e contextual. Revisões científicas apontam que a administração de glicose pode provocar melhoras transitórias na atenção e em marcadores de memória episódica, dependendo da dose e do perfil metabólico do indivíduo. Um estudo de 2015 registrou ganhos em tarefas de associação entre objeto e localização, com resultados mais consistentes na memória episódica verbal do que em outras áreas cognitivas.

Apesar dessas pistas biológicas, a ciência não recomenda o aumento do consumo de açúcar para otimizar o aprendizado. A Organização Mundial da Saúde orienta que a ingestão de açúcares livres seja inferior a 10% da energia diária total, com a sugestão de redução para menos de 5%. A eficácia da consolidação mnésica permanece dependente de fatores como o descanso, a recuperação pós-estudo e a repetição espaçada, reforçando que a organização cognitiva e o sono são mais determinantes do que a ingestão isolada de doces.

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