Fóssil de ovo com embrião confirma que ancestrais dos mamíferos botavam ovos na África do Sul
Um embrião de Lystrosaurus preservado em um ovo de 250 milhões de anos foi identificado na África do Sul por meio de tomografia e análise de síncrotron. O estudo, publicado na PLOS One, confirma que esse ancestral dos mamíferos botava ovos e não alimentava os filhotes com leite
A descoberta de um embrião preservado dentro de um ovo de 250 milhões de anos, encontrado na Bacia de Karoo, na África do Sul, resolveu um debate secular sobre a reprodução dos ancestrais dos mamíferos. O fóssil pertence ao *Lystrosaurus*, um sinapsídeo herbívoro que viveu no Triássico Inferior. A evidência, detalhada em estudo publicado na revista *PLOS One*, confirma que esses animais botavam ovos, alterando a compreensão sobre a evolução reprodutiva da linhagem que deu origem aos seres humanos.
O exemplar foi coletado em 2008 pelo paleontólogo John Nyaphuli, mas a confirmação do conteúdo da rocha exigiu quase duas décadas de avanço tecnológico. Somente em 2026, por meio de tomografia computadorizada de alta resolução e análise em síncrotron na Instalação Europeia de Radiação Sincrotrônica, em Grenoble, na França, foi possível visualizar o embrião. O equipamento, que utiliza raios X milhões de vezes mais intensos que os de hospitais, permitiu enxergar a estrutura óssea sem destruir a amostra.
As imagens revelaram um embrião envolto em uma casca mole e coriácea, com mandíbulas que ainda não haviam se fundido completamente, característica observada em embriões de tartarugas e aves modernas. Diferente dos monotremados atuais, como a equidna e o ornitorrinco — que também põem ovos de casca mole, mas possuem glândulas mamárias —, o *Lystrosaurus* não alimentava seus filhotes com leite. O desenvolvimento do embrião dependia exclusivamente de uma quantidade elevada de gema, proporcionando independência alimentar imediata após a eclosão.
Essa estratégia reprodutiva foi fundamental para que o *Lystrosaurus* dominasse os ecossistemas após a Grande Extinção do fim do Período Permiano, evento que eliminou cerca de 90% das espécies terrestres devido a chuvas ácidas, secas, oceanos contaminados e aquecimento global extremo. A capacidade de reprodução rápida e a baixa dependência parental permitiram que a espécie colonizasse o ambiente devastado.
A análise comprova que a lactação e a viviparidade — a capacidade de dar à luz filhotes vivos — surgiram posteriormente na escala evolutiva. Estima-se que a produção de leite tenha se desenvolvido entre 252 e 201 milhões de anos atrás, durante o Triássico.
Para Julien Benoit, professor do Instituto de Estudos Evolutivos da Universidade de Witwatersrand, o achado é um marco que auxilia a ciência a prever como espécies atuais podem reagir a estresses ambientais. Enquanto o *Lystrosaurus* prosperou com a independência precoce dos filhotes, os mamíferos modernos adotaram o caminho oposto, com gestações longas e alta dependência parental, o que os torna mais vulneráveis em cenários de catástrofes globais comparados a répteis e insetos.
Apesar da relevância do achado, os pesquisadores ressaltam que a preservação de ovos de casca mole é excepcional e rara, mantendo em aberto as discussões sobre a posição exata do *Lystrosaurus* na árvore evolutiva.