Ciência

Nova métrica indica que o tempo para colisões na órbita baixa da Terra caiu drasticamente

20 de Abril de 2026 às 09:08

O Relógio CRASH indica que o tempo estimado para colisões na órbita baixa da Terra caiu de 164 dias em 2018 para 3 dias em março de 2026. Entre dezembro de 2024 e maio de 2025, a SpaceX realizou 144.404 manobras de prevenção nos satélites Starlink. O cenário é agravado pelo pico do ciclo solar e pelo aumento de detritos espaciais

Uma nova métrica de análise, denominada Relógio CRASH (Collision Realization And Significant Harm), revela que a órbita baixa da Terra atingiu um nível de congestionamento sem precedentes, tornando-se extremamente dependente de manobras precisas para evitar desastres. O indicador, publicado no arXiv, calcula o tempo estimado para que ocorra uma colisão caso satélites, detritos e estágios de foguetes abandonados parem de realizar movimentos de evasão.

A deterioração da segurança orbital é evidenciada pela queda drástica nos prazos do indicador: enquanto em janeiro de 2018 o tempo esperado para uma colisão era de 164 dias, esse número recuou para 5,5 dias em junho de 2025 e chegou a apenas 3 dias em março de 2026. Esse cenário reflete o crescimento exponencial de objetos em órbita, onde a frequência de aproximações a menos de um quilômetro de distância aumentou significativamente. Em junho de 2025, tais eventos ocorriam aproximadamente a cada 36 segundos, contra um intervalo de 3,9 minutos em 2018. Na altitude de 550 quilômetros, região onde opera a constelação Starlink, a frequência de aproximações próximas é de 22 minutos.

Para sustentar a estabilidade desse ambiente, a dependência de operações sem erros é total. Entre dezembro de 2024 e maio de 2025, a SpaceX executou 144.404 manobras de prevenção de colisões nos satélites Starlink, com um volume de movimentações que historicamente dobra a cada seis meses. Cada manobra, além de consumir combustível, gera incertezas de posicionamento que podem atingir 40 quilômetros logo após a execução.

O risco é agravado pela atividade solar. Em outubro de 2024, a NASA e a NOAA confirmaram que o Sol atingiu o pico de seu ciclo de 11 anos. Erupções solares frequentes aquecem a atmosfera superior, alterando a resistência atmosférica e modificando as trajetórias dos satélites de forma imprevisível. Um exemplo ocorreu em maio de 2024, quando a maior tempestade solar em mais de duas décadas forçou quase metade dos satélites ativos na órbita baixa a realizar manobras durante três dias devido ao aumento do arrasto. Eventos dessa magnitude podem comprometer o rastreamento e a navegação, elevando as incertezas de posição para vários quilômetros e tornando a prevenção de colisões dependente de dados defasados.

A possibilidade de um impacto catastrófico pode desencadear a síndrome de Kessler, fenômeno em que a colisão entre dois objetos gera fragmentos que provocam novas colisões em cascata. Modelagens indicam que áreas da órbita baixa entre 600 e 800 quilômetros de altitude já ultrapassaram o limiar instável para o crescimento descontrolado de detritos a longo prazo.

Diante desse quadro, os pesquisadores defendem a implementação de regras mais rígidas para o ambiente compartilhado, incluindo a redução do prazo de desorbitação de satélites desativados para cinco anos, a padronização do compartilhamento de dados orbitais e a gestão da capacidade de lançamento como um recurso limitado. A resiliência a tempestades solares e o investimento em redundância de rastreamento são apontados como medidas essenciais para evitar que a falha de coordenação por um período de três dias transforme o cenário hipotético do Relógio CRASH em uma realidade sistêmica.

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