Senegal defende soberania africana e gestão local de recursos naturais em fórum de segurança
O 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África reuniu representantes de 38 países para discutir soberania, integração regional e combate ao terrorismo no Sahel. O evento abordou a gestão de recursos naturais, a cooperação em defesa e a necessidade de investimentos na juventude para reduzir a instabilidade
A soberania e a integração regional foram estabelecidas como pilares fundamentais para a estabilidade e a segurança do continente africano durante o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África. O evento, realizado nos dias 20 e 21 de novembro, na capital do Senegal, reuniu chefes de Estado, representantes de organismos internacionais e especialistas de 38 países, incluindo o Brasil, representado pela embaixadora Daniella Xavier.
O presidente do Senegal, Bassirou Diomaye, enfatizou que a agenda de segurança e o espaço estratégico da região não podem ser definidos por potências externas. Esse posicionamento foi direcionado a governos europeus presentes, como França, Portugal, Espanha e Alemanha. Diomaye vinculou a soberania política à gestão de recursos naturais, como petróleo, gás e urânio, defendendo que a extração e a transformação desses insumos ocorram em território africano para impulsionar a economia local, em vez de alimentar apenas indústrias estrangeiras.
Um dos pontos centrais do debate foi o combate ao terrorismo no Sahel, região que abrange dez países e é considerada o epicentro global do terrorismo. Dados do Índice de Terrorismo Global de 2026 indicam que o Sahel concentrou mais da metade das mortes causadas por terrorismo no mundo em 2025. O cenário é especialmente crítico no Mali, Burkina Faso e Níger, que somam 17 mil mortes e 4,5 mil atentados nas últimas duas décadas, agravados por instabilidades políticas e golpes militares.
Para enfrentar a expansão de grupos filiados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, que avançam em direção ao Golfo da Guiné, o governo senegalês defende uma resposta multidimensional. A estratégia envolve a troca de informações, operações conjuntas de defesa e, prioritariamente, o controle rigoroso das fronteiras, combatendo a falta de coordenação de segurança que tem sido explorada por extremistas islâmicos.
Complementando a visão de segurança, o presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, argumentou que a instabilidade é alimentada por falhas de governança e pela ausência do Estado, o que facilita o recrutamento de jovens por grupos criminosos e extremistas. Bio propôs que investimentos na juventude sejam tratados como estratégia de segurança nacional, visando oferecer alternativas ao ciclo de violência.
A integração econômica também foi pauta, com o presidente da Mauritânia, Mohamed Cheikh El Ghazouani, defendendo que a união regional é a única forma de reduzir dependências externas e enfrentar desafios como as mudanças climáticas e a fragmentação geopolítica. Nesse contexto, foi destacada a importância da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) para a circulação de bens e pessoas. O líder de Serra Leoa, atual presidente da Cedeao, manifestou a intenção de reintegrar Mali, Níger e Burkina Faso, nações que deixaram o bloco por considerarem a organização subordinada a interesses estrangeiros.
O fórum, promovido pelo governo senegalês desde 2014, incluiu ainda discussões sobre indústria de defesa, transição política, recursos naturais e soberania digital e tecnológica.