Estudo indica que condições favoráveis a incêndios florestais na América do Norte cresceram 36%
Estudo na revista Science Advances aponta que o tempo favorável a incêndios na América do Norte cresceu 36% em horas anuais e 44% em dias desde a década de 1970. A análise de satélites indica que 14% dos picos de intensidade do fogo agora ocorrem à noite. O aumento de horas anuais de risco chega a 2 mil no sudoeste do Novo México e centro do Arizona
As condições meteorológicas favoráveis à propagação de incêndios florestais na América do Norte expandiram-se significativamente nas últimas décadas, eliminando a trégua natural que ocorria durante as madrugadas. Um estudo publicado na revista *Science Advances* revela que a queda de temperatura e a recuperação da umidade do ar, que historicamente reduziam a intensidade das chamas e facilitavam o combate ao fogo, perderam força.
A análise indica que o total anual de horas com clima propício à queima cresceu 36% em relação à metade da década de 1970. Além disso, houve um aumento de 44% nos dias com tempo favorável ao fogo, o que representa 26 dias extras por ano comparado ao padrão de cinquenta anos atrás. Essa mudança deslocou a janela de risco, que antes se concentrava nas tardes quentes, para as noites e manhãs, mantendo a vegetação mais suscetível à combustão.
Para fundamentar a descoberta, a equipe de pesquisa utilizou dados horários de satélite de quase 9 mil incêndios de grande porte ocorridos entre 2017 e 2023. Através de um modelo que correlaciona a atividade do fogo a variáveis como vento, chuva, temperatura e umidade (do ar e do material combustível), os autores aplicaram o sistema a séries históricas climáticas desde os anos 1970.
Os resultados demonstram a periculosidade dos eventos recentes: 60% dos incêndios analisados atingiram o pico de intensidade em menos de 24 horas. Notavelmente, 14% desses picos ocorreram durante a noite, contrariando a expectativa histórica de enfraquecimento das chamas no período noturno. Esse cenário compromete o planejamento de resposta, pois reduz a margem operacional de brigadistas e equipes de emergência, tornando a contenção mais complexa e aumentando as chances de expansão rápida.
O agravamento do risco varia conforme a região. No sudoeste do Novo México e no centro do Arizona, o acréscimo chega a 2 mil horas anuais de clima favorável ao fogo. Na Califórnia, o aumento é de cerca de 550 horas por ano em relação à década de 1970. Já no oeste do Canadá, especificamente em Alberta e na Colúmbia Britânica, registraram-se entre 200 e 250 horas extras.
Essa tendência não se limita ao verão, embora esta estação concentre o maior ganho absoluto de horas. A deterioração climática espalhou-se por outras partes do calendário, ampliando o período do ano em que episódios agressivos podem ocorrer. Eventos como os incêndios de Lahaina (Havaí, 2023), Jasper (Alberta, 2024) e os focos em Los Angeles (2025) exemplificam a relevância do avanço noturno do fogo.
A explicação técnica reside no enfraquecimento do contraste diário entre dia e noite. Com madrugadas mais secas e quentes, a vegetação permanece vulnerável, e o fogo encontra continuidade em áreas de vegetação densa, encostas, margens de rodovias e zonas de transição entre florestas e áreas urbanas.
A perda dessa pausa meteorológica pressiona ecossistemas já fragilizados e amplia a ameaça a comunidades situadas na interface entre a vegetação e a ocupação urbana, colocando em risco infraestruturas, redes de energia e serviços essenciais. O estudo ressalta que a crise não reside apenas na extensão do calendário de queimadas, mas na erosão do intervalo noturno, transformando a madrugada em um período de risco elevado que exige a adaptação de protocolos de segurança e vigilância contínua.