Ciência

Estudo mostra que missões espaciais de três dias alteram a biologia e a cognição humana

19 de Abril de 2026 às 16:04

Estudo na revista Nature sobre a missão Inspiration4, com quatro civis a 590,6 km de altitude por três dias, identificou respostas inflamatórias, alterações genéticas e cardiovasculares. A análise registrou lentidão em quatro de dez testes cognitivos da NASA e enjoo em dois tripulantes. A maioria dos indicadores estabilizou após o retorno à Terra

A permanência de apenas três dias no espaço é capaz de gerar alterações mensuráveis no organismo humano. Os dados foram obtidos com a tripulação da missão Inspiration4, lançada em 15 de setembro de 2021, que consistiu no primeiro voo orbital composto inteiramente por civis.

A nave atingiu 590,6 quilômetros de altitude, superando a órbita da Estação Espacial Internacional. Durante o trajeto, os quatro tripulantes ficaram expostos ao confinamento, à radiação e à microgravidade, fatores que impactam o funcionamento do corpo. Um estudo publicado na revista Nature revelou que a adaptação biológica ocorre rapidamente, identificando respostas inflamatórias, ativação de genes relacionados a danos no DNA, mudanças na sinalização imune e o alongamento de telômeros. Embora a maioria desses indicadores tenha retornado ao estado normal após o pouso, a pesquisa demonstra que missões curtas não são fisiologicamente irrelevantes.

A análise incluiu o sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio e orientação espacial. Através do monitoramento do alinhamento ocular, os pesquisadores avaliaram a função dos otólitos no ouvido interno. Dois dos quatro integrantes sentiram enjoo espacial, evidenciando a necessidade de reorganização sensorial imediata ao sair da gravidade terrestre. Essa instabilidade refletiu no desempenho mental: em dez testes da bateria Cognition da NASA, a precisão foi mantida na maioria das tarefas, mas houve lentidão significativa em quatro delas. Em três desses casos, a acurácia também caiu, com destaque para a práxis motora. O estudo sugere que a queda na agilidade mental pode estar ligada ao esforço do corpo para recalibrar a percepção corporal e o equilíbrio.

No campo cardiovascular, o monitoramento via relógios inteligentes registrou variações na frequência e variabilidade cardíaca, além de redução no gasto energético e na atividade física durante a órbita. Um dos tripulantes apresentou saturação de oxigênio mais baixa e redução da frequência cardíaca em voo, embora os níveis tenham se estabilizado após o retorno.

Os resultados servem como referência para futuras operações privadas, embora os autores ressaltem que a amostra reduzida e a ausência de um grupo de controle em solo limitam as conclusões. Novas missões são necessárias para estabelecer relações causais robustas, mas o conjunto de dados confirma que a resposta do corpo ao ambiente espacial inicia-se precocemente, afetando desde a biologia celular até as funções cognitivas e o sistema cardiovascular.

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